A Natureza - Eckhart Tolle


Também necessitamos da Natureza para que nos ensine o caminho para “CASA”, o caminho de saída da prisão das nossas mentes.


Dependemos da Natureza não só para nossa sobrevivência física.

Nós nos perdemos no “FAZER”, no “PENSAR”, no “RECORDAR” e no “ANTECIPAR”.

Estamos perdidos em um complexo LABIRINTO, em um mundo de problemas.

Temos esquecido daquilo que as Rochas, as Plantas e os Animais já sabem.

Nós nos esquecemos de SER: de ser NÓS MESMOS, de estar EM SILÊNCIO, de estar onde a VIDA está.

AQUÍ e AGORA!





Levar a sua ATENÇÃO a uma Pedra, a uma Árvore ou a um Animal, não significa “pensar neles”, senão simplesmente PERCEBÊ-LOS, dar-se conta deles.

Ao se dar conta disso, você também entra em um lugar de PROFUNDO REPOUSO DENTRO DE SI MESMO.

Então eles lhe transmitem algo da sua ESSÊNCIA. Você sente o quão profundamente DESCANSA NO SER, completamente UNIFICADO com aquilo que você é e com o lugar onde está.

Quando caminhar ou descansar na Natureza, HONRA ESTE REINO, permanecendo nele PLENAMENTE. SERENE-SE. OLHE. ESCUTE.

Observa como cada Planta e Animal são completamente eles mesmos.

Diferente dos Humanos, eles não estão divididos em dois.

Não vivem através de IMAGENS MENTAIS DE SI MESMOS, e por isso não têm que se preocupar em proteger e potenciar essas imagens.

Todas as coisas naturais, além de estarem unificadas consigo mesmas, estão UNIFICADAS COM A TOTALIDADE.

Não se separaram do entremeado da Totalidade, reclamando uma existência separada: “EU”, o grande criador de conflitos.

Você não criou o seu corpo, e tampouco é capaz de controlar suas funções corporais.

Em seu corpo atua uma INTELIGÊNCIA maior que a Mente Humana. É a mesma Inteligência que sustenta tudo na Natureza.

Para se acercar ao máximo a esta INTELIGÊNCIA, seja CONSCIENTE do seu próprio CAMPO ENERGÉTICO INTERNO, SENTE a VIDA, a PRESENÇA que anima o seu organismo.

Quando percebe a Natureza tão só através da Mente, através do Pensamento, você não pode sentir a sua PLENITUDE DE VIDA, O SEU SER.

Unicamente vê a forma e não é consciente da Vida que a anima, do MISTÉRIO SAGRADO.

O Pensamento reduz a Natureza a um bem de consumo, a um meio de conseguir benefícios , conhecimento, ou algum outro propósito prático.

Observe, sente um Animal, uma Flor, uma Árvore, e veja como DESCANSAM NO SER.

É uma HARMONIA, uma SACRALIDADE que além de compreender a TOTALIDADE da NATUREZA, também está DENTRO DE VOCÊ.

Cada um deles é ele mesmo.Possuem uma enorme DIGNIDADE, INOCÊNCIA, SANTIDADE.

No momento em que olha mais além dos rótulos mentais, você sente a DIMENSÃO INEFÁVEL DA NATUREZA, que não pode ser compreendida pelo Pensamento.

A Respiração é natural.

O AR que respira é natural, como o próprio processo de respirar.

Dirige a Atenção à sua respiração e se dê conta de que NÃO É VOCÊ QUEM RESPIRA.

Conecte-se com a Natureza do modo mais íntimo e INTERNO, percebendo a sua própria respiração e aprendendo a manter a sua ATENÇÃO NELA.

Esta é uma prática muito CURATIVA e ENERGIZANTE.

Produz uma transformação de Consciência que lhe permite passar do MUNDO CONCEITUAL do PENSAMENTO ao campo da CONSCIÊNCIA INCONDICIONADA.

Você necessita que a NATUREZA lhe ensine e lhe ajude a SE RECONECTAR COM SEU SER.

VOCÊ não está separado da Natureza.

Todos somos parte da VIDA ÚNICA que se manifesta através das incontáveis formas em todo o UNIVERSO, formas que estão, todas elas,

COMPLETAMENTE INTERCONECTADAS.

Quando você reconhece a SACRALIDADE, a BELEZA, a incrível QUIETUDE e DIGNIDADE nas quais uma Flor ou uma Árvore existem, VOCÊ AGREGA ALGO a essa Flor ou a essa Árvore.

OSHO - BR: ILUMINAÇÃO

OSHO - BR: ILUMINAÇÃO: "Se você estiver cansado do mundo, cansado de sua angústia e ansiedade, e compreender que agora é hora de acordar, então não há dificuldade"...

TUDO PASSA - SATYAPREM



Quando você não se envolve e não se apega às coisas, elas não são um problema, são apenas algo acontecendo e que passará. E nada precisa ser feito, porque tudo passa. Sabendo que tudo passa, que necessidade tem de fazer alguma mudança ou interferência? É nesse ponto que existe descanso, relaxamento, paz

A mente tenta fazer uma construção coerente do tipo “como é que eu vou agir a partir de agora”. A minha única resposta para isso é: você não pode se preparar para a vida – você está despreparado para a vida, essa é a realidade. Viva momento a momento. O que acontece, acontece. Deixe tudo como está, isto é perfeito. É claro que seria ótimo, termos um livro com a construção completa do que precisa ser feito para ficarmos sempre no ponto de equilíbrio, mas isso não existe! Não tem como. Aliás, em 1982, fiz uma única pergunta ao Osho: “Como?” E ele me respondeu: “Querido Satyaprem, quando houver um ‘como’, eu vou destruí-lo, não se preocupe.”

RANJIT MAHARAJ

01




Junho de 1996 (Bretanha, França).





VISITANTE: Quando contemplo minha verdadeira natureza, estou no “eu sou”. Um sentimento de amor sem causa me invade então. Será que esse sentimento é justo ou ainda é uma ilusão?



RANJIT MAHARAJ: É a felicidade do ser. Você prova a presença “eu sou”. Você esquece tudo, os conceitos e a ilusão, é um estado não-condicionado. Essa felicidade aparece na ignorância ou no esquecimento do objeto, mas na felicidade há sempre um leve contato do ser, está tocado. Afinal, isso é ainda um conceito. Quando você está cansado do mundo exterior, você quer ficar recolhido em você. É a experiência dum estado elevado, mas ainda da mente. O Si não tem nem prazer nem desprazer. Sem o “eu” eu sou.

O esquecimento total da ilusão quer dizer que nada é, nada existe. Ela está ali de certa maneira, mas para você não tem mais realidade. É o que chamamos por realização ou conhecimento de si. É a realização de si sem o “eu”, sem a experiência. Se alguém o chama, você responde: “estou aqui”, mas antes de dizer “estou aqui”, você era. Seu sentimento de ser não estava ali, mas quando é chamado, esse sentimento jorra espontaneamente. Assim, é chamado não-condicionado.

A ilusão não pode trazer nada mais á realidade, não pode dar algo de “extraordinário” á realidade, porque a realidade é a base de tudo que existe. Tudo que é, o que você vê, os objetos da sua percepção, tudo isso é apenas devido á realidade. A ignorância e o conhecimento não existem, eles não são. Então qual é a expressão que você pode dar-lhes? Quando você dá uma expressão, isso quer dizer que há algo experimentado. E é a experiência do que de fato não existe. Assim que você sente algo, você se afasta de si – mesmo. Você sente amor, é muito melhor que ficar na ignorância, mas afinal é sempre um estado, e um estado é sempre condicionado. O não-condicionado é sem estado. Trata-se da experiência da não-existencia da ilusão. Se você sentir existência por menor que seja, é ignorância. Isso é muito sutil, a ignorância e o conhecimento são ambos sutis. É difícil entender, mas se dedicar realmente a essa investigação, conseguira esse estado. Isso é, e sempre foi, mas você não sabe, é a dificuldade. Não há um único lugar, um único ponto onde a realidade não seja. Você experimenta sua existência a través os objetos, mas tudo isso não é nada. Ela é onipresente, mas não pode vê-la. Por quê? Porque você é ela – mesma, a realidade, como você pode ver a si – mesmo? Para ver sua face, você precisa dum espelho.

A verdadeira felicidade está em você, e não fora de você. No sono profundo você é feliz, está na ignorância do mundo. Assim a felicidade reside no esquecimento do mundo. Deixe o mundo do jeito que é, não o destrói, mas saiba que ele não é. Faça todas as coisas que tem a fazer, mas esteja sempre de fora, afastado pela compreensão, porque tudo que você sente, percebe e faz é ilusão, não existe. Sua mente deve aceitar isso. Os sábios dizem “Já que isso é nada, como esse nada pode afetá-lo?” Mas o que diz sua mente o afeta, o toca... Então, que fazer? A mente é nada mais que conhecimento, mas isso não está certo.

Dois homens queriam pregar uma peça a um dos seus amigos. Um deles começa insultando outro, que se pus então a rir. O terceiro, ultrajado lhe diz: “como você pode rir enquanto ele o insulta?”. Ria porque sabia que era apenas um jogo, tinha a chave do jogo, mas o outro não entendia. Da mesma maneira, os seres realizados vivendo nesse mundo compreendem que tudo isso é nada, e seja o que for que aconteça, nada acontece. Assim não estão tocados. As pessoas estão sempre no temor do que acontece ou vá acontecer, do que os outros vão dizer. “O que vou fazer?”, pensam, “o que vá me acontecer?”. Lutam ou festejam. Todas essas alienações e esses bloqueios vêm da mente, mas aquele que está fora do circulo entende que tudo isso é nada, não existe, que é apenas ignorância.

É dito que aquele que mergulha nas profundezas do oceano encontra a perola. Aquele que fica na superfície é arrastado no turbilhão do prazer e do sofrimento. Você deve mergulhar fundo no ilimitado porque é ali que você está. Nunca pare ao finito, ao limitado. O ouro não se preocupa com as formas que moldam as jóias, isso pode ser a figurinha dum cachorro ou duma divindade, é indiferente ás formas. Da mesma maneira, seja indiferente ás coisas porque não existem, nada pode tocá-lo, você não está ligado. A mente deve chegar á plena compreensão do que é a ilusão. O que sobrou é seu estado.

Nada sobrou para aquele que entendeu, não há nem ganho nem perda. Não me pergunte se você pode alcançar a realidade, porque você é a realidade, então porque dizer: “posso?”. Primeiramente, saia do círculo, largue as coisas uma após outra, e mergulhe em você – mesmo. Em seguida volte, e esteja em tudo.

O que descreveu é um bom estado, não há dúvida á respeito, mas vá um pouco mais longe. Quando a mente aceita que tudo é ilusão, tudo apenas ilusão, então você está em você – mesmo. O corpo e a mente são ilusões, você deveria estar feliz por saber isso. Livre-se dessa identificação. A única coisa que o mestre faz é dar seu real valor ao poder que está em você, ao qual você não dá nenhuma importância. Ele não faz mais nada. Era uma pedra, e o mestre revela sua verdadeira natureza que é o diamante. Faz de você – mesmo a pedra mais preciosa. Eu sou onipotente, onipresente, sou o criador de tudo que é. Quando você está na base de tudo, você é tudo, então, até um assassino não pode ser considerado como mal. Tudo que acontece é “minha ordem”. Seja o mestre, não o escravo. Você já é o mestre.



V: Gostaria de saber por que alguns seres realizados se reencarnam para ajudar outros a se realizar?



R.M: Ninguém vai ninguém vem... Quem lhe diz isso? Você leu alguns livros e você os repete. É dito que o maior homem é aquele que morre desconhecido. Rama e krishna eram “heróis” secundários. O homem realizado vive no silêncio e morre no silêncio. Depois seu pensamento trabalha em alguma outra pessoa, mas que eles voltam é insensato. Ninguém vai ninguém vem. Tudo é apenas um sonho. No sonho você se torna um grande mestre, mas ao acordar, você retorna ao estado comum. Quem foi lá, e quem voltou? Nada aconteceu, o conceito dum grande mestre o afagou e você se tornou esse “grande mestre”. Ao acordar você pensa: “oh tudo isso é insensato, como posso ser um grande mestre, não sei nada?”. Porém, no sonho, você dava conferencias e falava de todas essas coisas com desenvoltura, mas ao acordar esses conhecimentos sumiram. Era apenas um sonho

De onde isso apareceu, e onde isso desapareceu? Quando nada é, tudo são apenas crenças e conceitos da mente. O pretenso sábio que diz: “eu sou a reencarnação de Deus”, não o conhece e não conhece a realidade. Ao contrario é escravo do seu ego, da ilusão. Quando o próprio conhecimento não tem entidade, todas essas questões são irrelevantes.

Aquele que entende se livra de tudo. Essa pessoa se parece a uma pessoa comum, mas seu coração é muito diferente. Se você ficar fora, como pode entender? Para você se tornar proprietário dessa casa, deve entrar nela. Da mesma maneira, você deve penetrar seu próprio ser para se tornar proprietário dele, mas ai, o “eu” não cabe como “eu”, não se trata nem de mestre nem de discípulo. O pensamento do mestre pode inspirar todo aquele que incorpora, porque ele e aquele que partiu em silêncio são “um”. Penetre o coração do ser realizado, e você não se mantém mais como “você”, porque só ele é. Assim, é dito daqueles que ensinam que são encarnações de Deus. O mestre dá o conhecimento para todos, mas não lhe dá valor, porque sabe que o conhecimento é a maior ignorância. Não seja afetado por nada



V: Se tudo é ilusão, será você – mesmo uma ilusão?



R.M: Oh sim! Eu sou a maior das ilusões! Tudo que digo com tanto coração e tão francamente é falso. Mas o falso que lhe digo pode fazê-lo alcançar esse ponto. O endereço da pessoa não é real, apenas a pessoa é real. Quando você chega numa casa graça ao endereço que lhe foi dado, aquele só se torna verdadeiro no momento que entra na casa. As palavras não são outra coisa senão indicações, não têm realidade em si. Se “eu” ficar, eu sou também uma ilusão. Não se mantenha como “eu”, é isso a grande compreensão da filosofia. São Tukaram diz “vi minha própria morte, e o que vi ali, a felicidade que foi revelada, isso eu sei” Você deve morrer primeiro, “você” quer dizer ilusão.

Assim, o que digo é falso, mas ainda assim verdadeiro porque estou falando “Disso”. O endereço é falso, mas quando você encontra a pessoa, é a realidade. Da mesma maneira todas as escrituras sagradas e todos os livros filosóficos estão ali somente para indicar esse ponto e quando você o alcança, eles se tornam não-existantes, vazios. As palavras são falsas, apenas aquilo que veiculam é verdadeiro, são todas ilusões, mas compreender a ilusão, a ilusão é necessária. Por exemplo: você tira uma espinha fincada no seu dedo com outra espinha, em seguida você joga ambas as espinhas. Mas se você conserva a espinha que lhe serviu para tirar a primeira, inevitavelmente será picado novamente. Para tirar a ignorância, o conhecimento é necessário, mas finalmente ambos devem se dissolver na realidade. VOCÊ – mesmo é sem ignorância, sem conhecimento.

Assim, o mestre e o buscador são ilusão porque eles são apenas “um”. O falso só pode ser suprimido pelo falso. Se você guardar a secunda espinha (o conhecimento), até se for de ouro, ela o picará. O ego é a única ilusão, e o ego é conhecimento. Diz-se que para pegar ladrão, é preciso se passar por ladrão. Você poderá então lhe dizer: “eu sei que é ladrão, mas cuidado estou aqui, não poderá me roubar”. Você não pode pegar um ladrão, porque ele tem quatro olhos e você só dois. Numa piscadela o ladrão descobre objetos de valor, e ao menor descuido da sua parte, ele o rouba! A ilusão é parecida ao ladrão, você deve então ser mais forte que o ladrão! Sua mente deve aceitar que tudo é ilusão, nada mais que ilusão, você será então o “grande dos grandes”

O conhecimento é a maior coisa, mas deve ser apenas um remédio. Quando a febre desaparece graça ao medicamento que você toma, você deve parar de tomá-lo. Não continue o tratamento, ou causará mais problemas. O conhecimento é somente necessário para erradicar a doença da ignorância. O medico lhe aconselhará sempre uma dosagem limitada!

Em primeiro lugar, entenda que o “eu” é ilusão, o que “eu” digo é ilusão. O mestre e o que ele diz são também ilusão, porque em realidade, eu e ele não existem mais. Absorve-se em você – mesmo, tão profundamente que desaparece. Senão eis o que acontecerá: Uma cabra entrou na sua casa, e para fazê-la sair, você abre a porta. A cabra sai, mas um camelo entra. O camelo é igual á ilusão.



V: Se um mendigo pede dinheiro a um ser realizado, o que fará?



R.M: É sua escolha, dá ou não dá porque afinal, ainda é ilusão. Ele pode parecer sem piedade ao ponto de não dar água a um doente que geme: “água, água”, não dará, porque esse homem vá morrer de toda maneira. Dando água para ele, vá respirar um pouco mais e sofrerá ainda mais. Você pensa ser bom lhe dando água, mas só aumenta o sofrimento dele. Por que ele está na ignorância, quer viver mais e mais, mas o que vai conseguir respirando um pouco mais? Terá mais sofrimento. Também, não o aconselha de ser sem piedade, mas guarde isso no fundo do seu coração. Dê-lhe água se quiser, mais saiba que lhe acrescenta sofrimento. Aquele que acredita ter feito uma boa ação se engana.

Se você der cem francos a um mendigo, não será mais rico amanhã, continuará mendigando, porque esse hábito é tão profundamente enraizado nele que se tornou sua secunda natureza. Todos os homens mendigam para conseguir a felicidade desde o nascimento, e finalmente morrem sem nunca consegui-lo. Até quando vocês vão rezar á igreja ou ao templo, vocês se fazem de mendigo perante Deus, primeiro mendigam para vocês, em seguida para suas mulheres, seus filhos etc. Assim, pechincham primeiro para vocês, e depois para os outros. Todo mundo procura a felicidade, mas não a consegue, porque seu método para alcançá-la é errado. Esteja sempre no caminho que o mestre lhe indica e será um com ele.

O hábito não é nada mais que o resultado duma mente estreita. A mente é o conhecimento, e quando penetra o corpo físico, se molda com paixões e hábitos Esses hábitos e paixões o deixam infeliz. Assim, estejam atentos, entre na prisão, mas saibam que não são culpados. Fique no mundo sabendo que nada é verdadeiro. Não crie paixões, compreenda o que são e estará livre na vida, enquanto o corpo se mantiver. Um dia, ele se desintegrará, mas ninguém nasce ninguém morre.

Bendito aquele que se realize. Realização quer dizer compreensão, e se compreender a ilusão, você será sempre feliz.

RANJIT MAHARAJ

Morelliana, sempre - fonte: IMAGINÁRIO POÉTICO


Yves Klein, L'Arbre, sculpture éponge bleue, 1962.



“Aqui se fecharam olhos através dos quais o universo se contemplava com amor e em toda sua riqueza.”

Epitáfio de Johann Jakob Wagner



“Como os eleatas, como Santo Agostinho, Novalis pressentiu que o mundo de dentro é o caminho inevitável para se chegar verdadeiramente ao mundo externo e descobrir que os dois serão um só quando a alquimia dessa viagem produzir um homem novo, o grande reconciliado.



Novalis morreu sem chegar à flor azul, Nerval e Rimbaud desceram em seu tempo até as Mães e nos condenaram à terrível liberdade de pretender-nos deuses a partir de tanto barro. Por todos eles, por aquilo que às vezes abre seu caminho em nossa cotidianidade, sabemos que só do fundo de um poço podem-se ver as estrelas em pleno dia. Poço e céu não querem dizer grande coisa, mas é preciso entender, traçar as abscissas e as coordenadas; Jung dá a sua nomenclatura, qualquer poeta a sua, a antropologia sabe dos regimes noturnos e diurnos da psique e da imaginação. Quanto a mim, tenho certeza de que só circunstâncias externas (uma música, o amor, um estranhamento qualquer) me isolam por um momento da consciência vigilante, isso que aflora e assume uma forma traz consigo a certeza total, um sentimento de exaltante verdade. Suponho que os românticos reservavam para isso a palavra inspiração e que a mania não era coisa diferente.



Tudo isso não pode ser dito, mas o homem existe para insistir em dizê-lo; o poeta, em todo caso, o pintor e às vezes o louco. Essa reconciliação com o mundo do qual fomos e estamos separados por um aberrante dualismo de raiz ocidental, e que o Oriente anula em sistemas e expressões que só nos atingem de longe e deformadamente, só pode ser suspeitada mediante vagas obras, estranhos destinos alheios e, mais excepcionalmente, em sustentáculos da nossa própria busca.



Se não se pode dizer, é preciso tentar inventar suas palavras, porque na insistência vai sendo circunscrita a forma e pelos buracos vai sendo tecida a rede; como um silêncio numa música de Webern, um acorde plástico num óleo de Picasso, uma brincadeira de Marcel Duchamp, aquele momento em que Charlie Parker começa a voar Out of Nowhere, estes versos de Attâr:



Após beber os mares nos surpreende

que nossos lábios continuem secos como

as praias

e buscamos outra vez o mar para nele nos molhar, sem ver

que nossos lábios são as praias e nós, o mar.



Ali e em tantos outros vestígios de encontro estão as provas da reconciliação, ali a mão de Novalis corta a flor azul. Não estou falando de estudos, de asceses metódicas, mas sim da intencionalidade tácita que dá forma ao movimento total de um poeta, que o torna asa de si mesmo, remo de sua barca, cata-vento de seu vento, e que revalida o mundo ao preço da descida aos infernos da noite e da alma. Detesto o leitor que pagou por seu livro, o espectador que comprou sua poltrona e a partir daí aproveita o macio travesseiro do prazer hedônico ou a admiração pelo gênio. Que importância tinha para Van Gogh a tua admiração? O que ele queria era a tua cumplicidade, que tentasses olhar como ele olhava com os olhos esfolados por um fogo heraclíteo.

Quando Saint-Exupéry sentia que amar não é olhar nos olhos do outro e sim os dois juntos olharem na mesma direção, ultrapassava o amor de casal, porque todo amor vai além do casal se for amor, e eu cuspo na cara de quem vier me dizer que ama Michelangelo ou Cummings sem provar que ao menos numa hora extrema foi esse amor, foi também o outro, olhou com ele pelo seu olhar e aprendeu a olhar como ele a abertura infinita que espera e exige.”



Julio Cortázar



Vincent Van Gogh, Two Cut Sunflowers, oil on canvas, 43.2 x 61.0 cm, Paris, August-September, 1887.




CORTÁZAR, Julio. A volta ao dia em 80 mundos. Tomo II. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. p.167-9.

QUEM SOU EU?


Quando inquirimos "Quem sou eu?", o "eu" investigado é o ego.

Também é esse "eu" quem faz a autoinvestigação.

O Ser não tem inquirição. É o ego que faz a investigação.

O "eu" sobre o qual a investigação é feita também é ego.

Como resultado da investigação, o ego deixa de existir e descobrimos que somente o Eu Real existe.


Ramana Maharshi

A U T O - C O M P A I X Ã O


1. Se você não amar a si mesmo você nunca será capaz de amar alguém mais. Se você não for benévolo consigo mesmo você não pode ser benévolo com ninguém mais. Seus assim chamados santos que são tão rigorosos com eles mesmos, estão só fingindo que são benévolos para com os outros. Isso não é possível. Psicologicamente é impossível. Se você não puder ser benévolo consigo mesmo, como é que você pode ser benévolo para com os outros?



O que quer que você seja para si mesmo você será para com os outros. Deixe que isso seja o ditado básico. Se você odeia a si mesmo você irá odiar os outros – e você foi ensinado a odiar a si mesmo. Ninguém nunca lhe disse, “Ame a si mesmo!” A própria idéia parece absurda: amar a si mesmo? A própria idéia não faz nenhum sentido – amar a si mesmo? Nós sempre achamos que para amar a gente precisa de alguém mais. Mas se você mesmo não experimentar isso você não será capaz de praticá-lo com outros.



Foi dito a você, constantemente condicionado, que você não vale nada. De toda direção tem sido mostrado a você, tem sido dito a você, que você é indigno. Que você não é o que deveria ser, que você não é aceito como você é. Existem muitos deveriam pendurados na sua cabeça, e esses deveriam são quase impossíveis de realizar. E quando você não consegue realizá-los, quando você fracassa, você se sente condenado. Um ódio profundo surge em você para consigo mesmo.Inconscientemente.



Como é que você pode amar os outros? Tão cheio de ódio, onde é que você vai encontrar amor? Assim você apenas finge, você apenas demonstra que está apaixonado. No fundo você não está apaixonado por ninguém; não pode estar. Esses fingimentos são bons por uns dias, então a cor desaparece, então a realidade afirma-se.



Todo caso de amor é gelado. Cedo ou tarde, todo caso de amor se torna bem envenenado. E como é que fica tão envenenado? Ambos fingem que estão apaixonados, ambos vão dizendo que amam. O pai diz que ama o filho; o filho diz que ama o pai. A mãe diz que ama sua filha, e a filha continua dizendo a mesma coisa. Os irmãos dizem que amam um ao outro. O mundo inteiro fala sobre amor, canta o amor... e você pode achar outro lugar mais desamoroso? Nem um pingo de amor existe – e existem montanhas de falas, um Himalaia de textos,orações, canções,poesias sobre o amor.



Parece que todas essas coisas são apenas compensações. Porque não podemos amar, temos de algum modo de acreditar através da poesia, do cantar, orar,que amamos. O que perdemos na vida colocamos nisso. O que vamos perdendo na vida, colocamos no filme, na novela. O amor está absolutamente ausente, porque o primeiro passo ainda não foi dado.



O primeiro passo é: aceite a si mesmo como você é, abandone todos os deverias. Não carregue nenhum dever em seu coração! Você não pode ser outro alguém; você não deve fazer coisa alguma que não lhe pertença. Você só tem que ser você mesmo. Relaxe e seja você mesmo. Seja respeitoso para com sua individualidade. E tenha a coragem de assinar sua própria assinatura. Não continue copiando assinaturas dos outros.



Ninguém espera que você se torne um Jesus ou um Buddha ou um Ramakrishna; espera-se que seja você mesmo. Foi bom que Ramakrishna nunca tenha tentado ser outra pessoa, assim ele tornou-se Ramakrishna. Foi bom que Jesus nunca tenha tentado tornar-se como Abraão ou Moisés, então ele tornou-se Jesus. Foi que Buddha nunca tenha tentado tornar-se um Patanjali ou Krishna; é por isso que ele tornou-se um Buddha.



Quando você não está tentando ser mais ninguém, então você simplesmente relaxa; assim surge uma graça. Desse modo você fica repleto de grandeza, esplendor, harmonia... porque assim não há nenhum conflito! Nenhum lugar para ir, nada pelo que lutar, nada para forçar violentamente sobre você. Você se torna inocente.



Nessa inocência você irá sentir compaixão e amor por você mesmo. Você irá se sentir tão feliz consigo mesmo que mesmo Deus vem e bate na sua porta e diz, “Você gostaria de tornar-se outra pessoa?” você dirá, “Você enlouqueceu?” Estou perfeito! Obrigado, mas nunca tente uma coisa dessas – Sou perfeito como sou”.



No momento que você pode dizer para Deus, “Sou perfeito como sou, Sou feliz como sou”, isso é o que no Oriente chamamos deshraddha - confiança; assim você aceitou a si mesmo e aceitando a si mesmo você aceitou seu criador. Negando a si mesmo você nega seu criador.



Se você for ver uma pintura de Picasso e você diz, “Isso está errado e aquilo está errado, e essa cor devia ser desse jeito, “você está negando Picasso. Na hora que você diz, “Eu devia ser assim”, você está tentando crescer em cima Deus. Você está dizendo, “Você cometeu erros crassos; eu devia ter sido assim, e você me fez desse jeito?” Você está tentando crescer em cima de Deus. Isso não é possível. Sua luta é em vão; você está destinado a fracassar.



E quanto mais você fracassa, mais você odeia. Quanto mais você falha, mais você se sente condenado. Quanto mais você falha, mais você se sente impotente. E desse ódio, dessa impotência, como é que a compaixão pode surgir? A compaixão surge quando você está perfeitamente fundamentado em seu ser. Você diz, “Sim, é assim que eu sou”. Você não tem ideais para realizar. E imediatamente a realização começa a acontecer!



As rosas florescem tão lindamente porque elas não estão tentando se tornarem lótus. E os lótus brotam tão belamente porque eles não ouviram as lendas sobre outras flores. Tudo na natureza vai tão belamente em harmonia, porque ninguém está tentando competir com ninguém, ninguém está tentando tornar-se alguém mais. Tudo é do jeito que é.



Apenas veja o ponto! Seja você mesmo e lembre-se que você não pode ser outra coisa, o que quer que você faça. Todos os esforços são fúteis. Você só tem que ser você mesmo.



Só existem dois caminhos. Um é: rejeitando, você pode permanecer o mesmo; condenando, você pode permanecer o mesmo; ou: aceitando, rendendo-se, desfrutando, deleitando-se, você pode ser o mesmo. Sua atitude pode ser diferente, mas você irá permanecer do jeito que você é, a pessoa que você é. Uma vez que você aceita, surge a compaixão. E assim você começa a aceitar os outros!



Você já observou: é muito difícil viver com um santo, muito difícil. Você pode viver com um pecador; você não pode viver com um santo porque um santo estará continuamente lhe condenando: por gestos, com os olhos, do jeito que ele olha para você, da maneira como ele fala com você; ele sempre tem alguns ideais nos olhos, encobrindo. Ele nunca lhe vê. Ele tem alguma coisa distante e ele prossegue lhe comparando com isso... e, é claro, você sempre cai. O próprio olhar dele lhe torna um pecador. É muito difícil viver com um santo... porque ele não aceita a si mesmo, como ele pode lhe aceitar? Ele tem muitas coisas nele. Notas dissonantes. Ele precisa ir além. É claro, ele vê as mesmas coisas em você de uma maneira exagerada.



Mas para mim só é um santo a pessoa que aceitou a si mesmo, e nessa aceitação ele aceitou o mundo inteiro. Para mim, esse estado da mente é o que a santidade é: o estado de aceitação total. E isso é curativo, terapêutico. Apenas estar com alguém que lhe aceita totalmente é terapêutico. Você será curado.



Osho, Extraído de: A Sudden Clash of Thunder

CÉU: O LIMITE DO ILIMITADO


Você se dedica, incansavelmente, a arrumar e decorar os quartos dos seus castelos de areia. Mas, que ordem pode ter um castelo que não existe?


Sua mente precisa ser convidada a ver isso! Se ela puder ter o vislumbre de que os castelos são de areia, isso é o suficiente para que você descanse, se acalme, relaxe, celebre e curta todos os momentos. E, saiba, isso não exclui absolutamente nada. Se dói no seu estômago a comida que você comeu, chore! O corpo irá lidar com seu karma, no momento presente. Não deixe que nada interfira na integridade do momento presente. Não se confunda! Promova esse compromisso com o Presente que te é dado a todo instante.

Os indianos chamam de “Satchitananda”, aquele transbordamento que acontece quando você olha e vê que você não cabe dentro de si mesmo. O corpo transborda através dos olhos, lágrimas correm, há um transbordamento – afinal, não tem como conter Aquilo que você verdadeiramente é, dentro desse corpo mínimo. Estamos falando de “reconhecimento”. Quando você não faz vista-grossa, pode notar o seu corpo andando, falando, sentindo, comendo... Você simplesmente nota, observa, tudo isso acontecendo.

Você é aquele que vê, você não é aquele que come, que anda, que chora... A partir desse reconhecimento, você anda sem andar, senta sem sentar, come sem comer... Seu nome é Observação e seu sobrenome é Paz. E aquele que Observa não se importa nem se desimporta com o que está sendo observado, ele apenas observa, sem a menor interferência no destino do corpo ou da mente
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