RÛMÎ: A Paixão pela Unidade

“Toda árvore ganha beleza quando tocada pelo sol”

(Rûmî)

Por: Faustino Teixeira

ciencia.religiao@acessa.com

Resumo



Na rica tradição mística do islã, Rûmî tem despontado como uma de suas figuras mais luminosas. Como místico, revelou com grande intensidade poética os temas do amor e da unidade do ser humano com o mistério sempre maior de Deus. O objetivo deste artigo é situá-lo na tradição do sufismo e apresentar, de forma sintética, alguns traços de sua reflexão mística: a paixão pela unidade, o trajeto para a unidade, a evidência de Deus e a religião do amor.

1. Introdução

O grande interesse suscitado pelo diálogo inter-religioso nos tempos atuais tem favorecido o processo de aproximação teórico e existencial de tradições religiosas distintas e de suas experiências místicas. Impõe-se com cada vez maior clareza a necessidade deste contato mais estreito, desta abertura à alteridade, como requisitos essenciais para uma justa avaliação das outras tradições religiosas. Verifica-se, igualmente, que um dos campos mais ricos e promissores do diálogo ocorre no âmbito da experiência mística, onde, em um nível mais profundo, é celebrada a dinâmica de enriquecimento recíproco e de cooperação fecunda, indicando a riqueza de um encontro para além das diferenças.

O aprofundamento das grandes correntes místicas presentes no interior do Islamismo tem sido um dos campos importantes de pesquisa na área do diálogo inter-religioso e da mística comparada, favorecendo pistas inusitadas para uma compreensão mais significativa da dinâmica relacional que envolve as tradições religiosas e, de modo particular, o Cristianismo e o Islamismo. Este ensaio visa situar, de forma sintética, a reflexão de um dos mais importantes e significativos nomes da experiência mística do Islã, Maulâna Djalâl od-Dîn Rûmî, nascido em setembro de 1207 em Balkh, Khorassan (região oriental do Irã), no atual Afeganistão. Na rica linhagem da tradição poética persa, Rûmî traduziu como poucos a riqueza infinita da experiência do amor e da busca do mistério que envolve e banha a dinâmica do humano. Foi, também, um dos primeiros mestres espirituais que manifestaram inusitada abertura inter-religiosa, reconhecendo e acolhendo a dinâmica revelacional presente nas diversas tradições religiosas. Na visão de uma autora que consagrou sua vida a estudar e a traduzir a extensa obra de Rûmî para o francês, Eva de Vitray-Meyerovitch, a mensagem desse místico traduz um radical universalismo: “uma mensagem de amor que retoma os valores mais essenciais do Cristianismo e do Islã, sem deles nada negar, acrescentando-lhes uma dimensão integralmente fraterna e ecumênica” 1.


 

2. A marca do Sufismo

O Sufismo é o nome mais recorrente para designar a experiência mística do Islã, traduzindo uma “dimensão interior” muitas vezes desconhecida ou desapercebida da tradição islâmica.

O termo Sufismo, tradução de tasawwuf, deriva-se da raíz suf, que em árabe significa lã. De fato, na experiência primordial do sufismo, os primeiros ascetas revestiam-se com o hábito de lã, de modo semelhante aos eremitas cristãos, em sinal de penitência e destacamento do mundo2. A idéia que predomina é a da “pureza”(safa), sendo o sufi aquele “puro de coração” em razão da presença envolvente do Bem Amado. Na busca de uma definição mais sintética, G.C. Anawati indicou que a mística sufi constitui um “método sistemático de união íntima, experimental, com Deus”3. Não há, porém, uma definição que esgote a complexidade do fenômeno. Rûmî ilustrou de forma admirável tal complexidade através da parábola do elefante, descrita no terceiro livro do Masnavi: “Alguns hindus estavam exibindo um elefante num quarto escuro, e muita gente se reuniu para vê-lo. Mas como o quarto estava escuro demais para que eles pudessem ver o elefante, todos procuravam senti-lo com as mãos, para ter uma idéia de como ele era. Um apalpou sua tromba e declarou que o animal parecia um cano d´água; outro apalpou sua orelha, e disse que devia ser um leque enorme; outro sua perna, e pensou que fosse uma coluna; outro apalpou seu dorso e declarou que o animal devia ser como um grande trono. De acordo com a parte que apalpava, cada um deu uma descrição diferente do animal. Um, por assim dizer, chamou-o de Dal e outro de Alif”4.

Como indicou Rûmî, a compreensão do Sufismo exige uma capacidade particular de apreensão da realidade que escapa ao olhar sensorial comum. Assim como a palma da mão, na parábola descrita, não consegue captar a totalidade do elefante, da mesma forma o olho da “percepção sensorial” é incapaz de alcançar a complexidade do Real. Ele está preso aos limites da “espuma”. Há necessidade de um salto adiante no sentido de poder perceber, para além da espuma que se mostra, a dinâmica do Mar que ela escamoteia: “O olho do Mar é uma coisa, a espuma é uma outra; deixe a espuma e olhe com o olho do Mar” (MIII, 1270).

O Sufismo remonta às origens do Islã e durante todo o seu desenvolvimento esteve radicalmente ligado à tradição islâmica. Em nenhum momento afirmou-se como ruptura com a fé corânica, evoluindo sempre na linha de sua interiorização e aprofundamento. Isto não significa a ausência de outras influências judaico-cristãs que marcavam o meio onde o Islamismo veio se firmar, ou de outras tradições religiosas que o Islã, em seu processo de expansão, encontrou pelo caminho. Os autores falam, sobretudo, do influxo cristão, neoplatônico, gnóstico e budista5. Mas, de fato, a mística sufi guarda uma autenticidade original, um carácter autóctone, que se traduz pelo traço corânico e árabe. O misticismo islâmico procede, como bem sublinhou Massignon, da contínua recitação, meditação e prática do Corão6.

Nos três primeiros séculos do Islã, que se iniciam a partir da Hégira (ano 622), a experiência mística sufi será caracterizada pela doutrina ascética, como a renúncia do mundo (zuhd), passando para a afirmação do tema do amor gratuito a Deus (hubb), até chegar ao amadurecimento espiritual com a ênfase no tema do conhecimento de Deus (ma´rifa). Deste primeiro período podem ser mencionados alguns nomes importantes, como Hasan al Basri (643-728), Rabi´a al-Adawiyya (+ 801), Dhu´n-Nun (+ 859), Abu Yazid Bistami (+ 874), Abu-l-Qasim al-Junayd (+ 911) e Abu Mansur Ibn Husayn al-Hallaj (857-922). Nos séculos IV e V da Hégira, que correspondem aos séculos X e XI d.C., ocorrerá uma mudança importante na

história do Sufismo, depois das tensões com a ortodoxia vigente no período anterior, que resultaram no martírio de al-Hallaj. No novo momento vai haver um importante processo de justificação da existência do Sufismo no contexto da sociedade islâmica, representado sobretudo pela presença de Abu Hamid al-Ghazzali (+ 1111). Trata-se do período de organização e consolidação do Sufismo. Entre os séculos XII e XIV d.C., o movimento conhecerá a irradiação de obras fundamentais nos campos da filosofia, literatura e poesia. É nesse contexto que vai ganhar vida a riqueza da poesia mística persa, da qual o grande expoente será Djalâl-od-Din Rûmî (1207-1273)7.

Apesar de sua profunda ligação corânica, os místicos sufis encontraram em sua trajetória uma viva oposição da ortodoxia islâmica, que resistiu ao singular sentido alegórico atribuído pelos sufis aos ritos e cerimônias tradicionais, bem como à sua peculiar interpretação do Corão. A tensão entre esoterismo e exoterismo não é exclusiva da tradição sufi, mas comum às diversas tradições religiosas. Há, sempre, a presença de dificuldades, tensões e mesmo conflitos abertos entre os guardiães da religião oficial, que se pretendem portadores da exclusiva gramática das normas, dogmas e práticas consideradas legítimas, e aqueles que buscam a dinâmica de uma religião interior, que não se detém diante das diferenças, na busca do mistério sempre maior de Deus8. Esta é uma estranha aporia presente na trajetória histórica do Sufismo: aqueles que mais amam atraem para si o rancor e o ódio dos exotéricos. Como sublinha Rûmî, muitos dos hipócritas que se refugiam na forma exterior são os que, antes, “derramaram o sangue de cem verdadeiros crentes em segredo” (MIV, 2177).

A descoberta de um sentido religioso novo, que aciona alegria no coração, suscita uma dinâmica de liberdade na experiência religiosa, que se destaca do aspecto puramente exterior da religião, provocando a oposição dos segmentos mais oficiais, dos teólogos e dos juristas. Isto não significa que os místicos sufis deixassem de observar as fórmulas externas do culto, mas a intensidade de sua experiência exigia algo mais. Para eles, a observância ritual devia ser acompanhada de um correspondente “movimento do coração” – caso contrário, perderia o seu sentido mais profundo.



3. Rûmî e o Sufismo

Não há místico sufi tão conhecido no Ocidente como Djalâl-od-Din Rûmî. Na visão de Erich Fromm, Rûmî foi “um dos maiores humanistas e místicos muçulmanos”, antecipando em duzentos anos traços essenciais do humanismo renascentista, como as idéias da tolerância religiosa e da força criativa fundamental do amor9. São inúmeras as traduções de suas obras para as línguas ocidentais, sendo sobretudo seus poemas místicos apreciados e reconhecidos universalmente. Seus sucessores o reconheceram como Mevlâna (“nosso mestre”)10. Rûmî já nasce num contexto favorável à irradiação mística. A região oriental do Irã, conhecida como Khorassan, que hoje pertence ao Afeganistão, tem em sua protohistória a presença marcante de tradições religiosas diversificadas, como o Budismo, o Zoroastrismo, o Hinduísmo e o Cristianismo nestoriano. Os especialistas reconhecem que o Islã afegão foi plasmado pela mística e pela abertura à diversidade11.

Rûmî nasceu no ano de 1207 na província de Balkh, berço da civilização persa. De seu pai, Baha´uddin Walad, um conhecido teólogo e mestre espiritual, herdou o interesse pelas questões teológicas e místicas. Em razão do temor da ameça mongol, das hordas de Gengis Khan, a família de Rûmî partiu, entre os anos 1215 e 1228, para uma série de viagens, começando pela peregrinação a Meca e Medina e fixando-se temporariamente em Aleppo, na Síria ou Damasco. Em 1228 chegaram à Anatólia Central, radicando-se finalmente em Konya. No tempo de Rûmî, Kônia era refúgio de inúmeros literatos, artistas e místicos do mundo islâmico oriental. Era conhecida não apenas por sua grande beleza, mas pela admirável tolerância reinante. Tratava-se de um dos raros lugares seguros e protegidos contra a devastação mongol.

Do primeiro casamento, com Gevher Hatun, ocorrido quando tinha 18 anos, Rûmî teve seu primeiro filho, Sultâm Walad, nascido em 1226. Ele será um dos seus importantes biógrafos12. Alguns anos após a morte de sua primeira esposa, Rûmî contraiu matrimônio com Kirâ Khâtûn, de família cristã, com a qual terá mais dois filhos. Após a morte de seu pai, ocorrida em 1231, Rûmî passou a conviver com Burhanud-Din Mahaqiq, antigo discípulo de Walad, com o qual passou a aprender durante uma década os mistérios do conhecimento místico. Após a partida de seu mestre, Rûmî “já havia alcançado o respeito e a admiração dos buscadores espirituais da rica capital dos Seljúcidas. Aos 37 anos, Rûmî já se tornara mestre, versado em filosofia, poesia clássica, teologia, jurisprudência e moral. Possuidor de uma reputação consolidada, centenas de discípulos seguiam-no. Enfim, Rûmî tornara-se o legítimo herdeiro espiritual de seu pai”13. Em busca de aprofundamento espiritual, esteve na Síria por uma ou duas vezes, onde provavelmente tomou contato com Ibn ´Arabi.

O decisivo acontecimento espiritual em sua vida foi, porém, o encontro com o velho nativo Shams ud-Din de Tabriz, no ano de 1244. O encontro de Rûmî com o dervixe errante, que tinha cerca de 60 anos, provocou a grande transformação em sua vida. Há inúmeras versões sobre o encontro destes “dois oceanos espirituais”, e todas elas indicam a experiência de estupefação mútua que fez brotar uma das mais espetaculares e ricas histórias de união mística. Segundo José Jorge de Carvalho, esta profunda união entre dois indivíduos é singular e única, “algo extremamente raro, em que duas pessoas conseguiram penetrar as esferas recôndidas da realidade extra-sensorial e extra-racional, e ver juntos a mesma dimensão, o mesmo espaço, a mesma fração da verdade absoluta”14. Da inspiração desse encontro nasceu uma das obras mais vastas e impressionantes de poesia mística, as famosas odes místicas de Rûmî, o Divan de Shams de Tabriz, inteiramente consagrado à experiência do amor, que, para além de sua manifestação terrestre, expressa a hipostase do amor divino.

Na construção de sua vasta obra em poesia e prosa, Rûmî sofreu uma gama variada de influências, das quais o grande referencial permanece sendo o Corão e a tradição do profeta Mohammed (Maomé). Os biógrafos do místico assinalam também o influxo de outros místicos sufis importantes como Bistami, Dhu´n-Nun, Ibn ´Arabi e al-Hallaj. Ao lado da tradição islâmica pode-se ainda assinalar influências neo-platônicas e da tradição gregacristã capadócia. A principal obra de Rûmî, o Masnavi, constitui uma feliz conjunção de poesia mística e tratado teológico-filosófico. Esta monumental obra, também denominada “Corão em lingua persa”, está divivida em seis livros, contendo cinquenta e um mil versos (25.630 dísticos)15. O seu tesouro principal, como lembra Mevlana, é o despojamento e a unidade (MVI, 1525 e 1528). Há, também, um importante tratado em prosa, denominado Fihi-ma-fihi, que pode ser literalmente traduzido por “nisso está o que aqui está”. Neste “livro do interior”, Rûmî exerce a função de mestre espiritual, com ensinamentos precisos visando a compreensão de seu pensamento16. Quanto à obra lírica, já se mencionou suas odes místicas (Divan de Shams de Tabriz)17. Pode-se também elencar suas famosas quadras de amor, Rubâ´yât18, e suas cartas19.


 
4. A paixão pela unidade

Na linha da tradição mística sufi, há em Rûmî uma visceral paixão pela unidade. Esta “consciência do Uno” foi saudada por Hegel em sua enciclopédia filosófica. Ele destacou no místico a presença “da unidade da alma com o Uno”, enquanto “elevação sobre o finito e o vulgar, uma transfiguração da naturalidade e da espiritualidade, na qual o que há de extrínseco e transitório na natureza imediata, como no espírito empírico e terreno é absorvido”20. Na base da compreensão metafísica de Rûmî está a convicção na unidade da existência (wahdat-e-wudjud). Uma unidade provisoriamente rompida na dinâmica existencial da individualidade pelo golpe da separação do espírito humano de sua origem fundamental. O ser humano, como a flauta de bambu (ney), lamenta esta separação e desterro: “Desde que me separaram de minha raiz, minhas notas queixosas arrancam lágrimas de homens e mulheres” (MI: 2). Há uma nostalgia permanente do ser humano, que anseia retornar à fonte e à união com o Amado. E o que inspira o lamento da flauta, que sonha a comunhão, é o amor (MI 12-14). A nostalgia manifesta-se como amor, que não é senão uma expressão da “sede metafísica” pela unidade. Há em Rûmî um desejo imenso de Deus, uma paixão pela unidade que “passa além das fronteiras. Da razão e da loucura. Do inferno e do paraíso. Das confissões. Tamanha a sua paixão pela unidade que muitos confundiram-no – erro formidável – com um panteísta. Mas a transcendência no Divã e no Alcorão é total, muito acima da natureza, que não passa de um espelho de Deus”21. Não pode haver senão Deus sob o manto do dervixe. Deus em sua Unidade é o tesouro escondido, mais perto do humano do que sua própria veia jugular. Mais próximo do humano que o vínculo que o une à sua própria alma. Os amantes são como falenas queimadas na tocha da face do Amado (MII, 2575). Onde quer que Ele acenda sua flama, “miríades de almas amorosas são queimadas” (MII, 2574).

Para Rûmî, a única e exclusiva realidade é a unidade. A multiplicidade não passa de aparência e ilusão. Não pode haver senão unidade da existência. O véu que, para ele, separa o ser humano de sua origem é o “sentimento de ser um existente independente e abandonado no seio de uma multiplicidade que não é senão ilusória”22. Na visão de Rûmî, em verdade, não pode haver senão Ele, o Amado. As cores, enquanto símbolos da multiplicidade, constituem uma ilusão, pois a Realidade não tem cor, e para ela todas as cores retornam.

Como podes ver o vermelho, o verde e o escarlate

A menos que primeiro vejas a luz?

Quando tua vista é ofuscada por cores,

Essas cores velam de ti a luz.

Mas quando a noite vela essa cores de ti,

Percebes que só são vistas por meio da luz (MI, 1121ss).

Esta idéia foi anteriormente sistematizada na tradição islâmica por Ibn´Arabi (sec. XII d.C). Com a doutrina da wahdat al wujûd, Ibn´Arabi busca assinalar a Realidade como essência de tudo. O “Ser Absoluto” (al wujûd al-mutlaq) é, para ele, a essência de tudo o que existe. O ser de Deus é único em seu princípio e múltiplo em sua forma de manifestação. A Realidade é simultaneamente una e fonte de toda existência limitada, que é sempre existência derivada. Para Ibn´Arabi, Deus é sempre a Unidade que está por trás da multiplicidade e das aparências23.



4.O trajeto para a Unidade

Na perspectiva de Rûmî, o horizonte do ser humano está para além do “eu” e do “nós”. Sua razão de ser está na permanência do Amado (MI, 1784 e 1788). Não existe “eu” e nem “nós” no mundo da Unidade. Mesmo reconhecendo a grande diversidade das formas da criação, da variedade das almas, como acontece no mundo das letras: apesar das inúmeras diferenças que povoam o alfabeto árabe, de Alif a Ya, há, segundo Rûmî, uma unidade integral que harmoniza as diferenças (MI, 2913-2914). O que é a chama da vela em presença do sol? O místico argumenta: em essência é existente, mas em realidade é não existente, uma vez aniquilada pelo sol (MIII, 3671 e 3673). A razão de ser do humano, para Rûmî, é ser no Amado. Não há melhor visão do que a visão do Um (MIII, 2924):

O meu lugar é sempre o não lugar,

não sou do corpo, da alma, sou do Amado

O mundo é apenas Um, venci o Dois.

Sigo a cantar e a buscar sempre o Um24.

Não é simples o itinerário que leva o sujeito ao encontro do Amado. Como mostra Rûmî, o Amado está sempre disponível e presente, ao alcance de uma acolhida. O amante jamais busca o Amado sem ser antes buscado por ele. O que ocorre, porém, é que nem sempre o sujeito encontra-se preparado e disponível para abraçá-lo. Há entre ele e o Amado o elo limitador do “eu”. Para Rûmi, enquanto o ser humano não destrói o seu “eu”, não consegue ser verdadeiramente um amigo de Deus. Para ilustrar esta idéia, ele desenvolve uma singular história no Masnavi, onde relata o encontro de um homem que bate à porta de um amigo. Ao ouvir o toque da batida, o amigo interroga: “Quem és tu, ó homem fiel?”. Em resposta ele diz: “Sou eu”. O amigo o rechaça, justificando que não é dado o momento de entrar, pois não há lugar na casa para aquele que não passou pelo fogo da experiência.

Desolado, o homem parte e, durante um ano de viagens e separação, sente o calor de um coração ardente, que passou pela chama da consumação. Ao retornar para a casa do amigo, bate à sua porta, com receio, respeito e temor de que uma palavra descuidada pudesse escapar de seus lábios. Ao bater, o amigo indaga: “Quem está à minha porta?”. Ele responde: “És tu que estás à porta, ó sedutor de corações”. O amigo então disse: “Já que sou eu, que eu entre; não há lugar para dois “eus” nesta casa” (MI, 3056-3063).

Seguindo uma lógica presente na tradição islâmica, Rûmî assinala que é necessário “morrer antes de morrer” (M IV, 2271,2272 e 1372). Trata-se de condição fundamental para o renascimento do ser espiritual (M V, 551)25. Não há como se achegar ao Bem Amado, senão renunciando à própria vida. É o que diz Rûmî em diversos momentos de sua obra: “O amoroso busca ardentemene o bem amado: quando o bem amado vem, o amoroso se vai” (M III, 4620)26. A presença do Amado é como a chama do amor que, quando se eleva, consome tudo o que não é o Bem Amado (M V, 588). Nada resta senão Deus. O destino do amante é morrer para si mesmo: dele só permanece o nome (M V, 2023)27. “Diante de Deus,

não pode haver dois “Eu”. Tu dizes “Eu” e Ele diz “Eu”; ou bem tu morres diante d´Ele ou então Ele que morre diante de ti, para que toda a dualidade desapareça. Mas Ele não pode morrer nem objetivamente, nem subjetivamente. Pois, Ele é o ser vivo que não morre jamais.”28

O morrer antes de morrer corresponde para Rûmî à morte mística, que deve anteceder à morte física. Trata-se da morte do “pequeno eu”29. Este estado de aniquilação do eu e sua absorção no Amado é o ideal místico de fanâ (MI, 3054). Esta absorção no Amado faz com que a condição efêmera do ser humano transforme-se em realidade eterna, que não morre jamais. Rûmî serve-se do exemplo da fragilidade da gota d´água, sempre ameaçada pela impetuosidade do vento e da terra. Ela só se protege do risco de sua dispersão quando é lançada no mar, que é a sua fonte. No mar, ela está protegida do calor do sol, do vento e da terra. No mar, sua forma exterior desaparece, mas sua essência permanece inalterada (M IV, 2615-2618). Para que se dê o acesso ao coração purificado, que possibilita esta experiência de despojamento radical, é necessário, segundo Rûmî, captar o sentido espiritual, uma razão iluminada pela luz divina. Não há outro caminho possível para se alcançar a iluminação, a inspiração divina e a visão mística.

Segundo a compreensão de Rûmî, o acesso ao sentido espiritual ocorre quando supera-se o limite da percepção sensorial. O olho do sentido exterior é como a palma da mão que não consegue captar a totalidade, como sinalizado na história do elefante no quarto escuro. Trata-se de uma percepção limitada, pois ainda muito agarrada à “concha terrena”; ela só consegue vislumbrar a espuma que escamoteia a realidade do mar (M V, 1030-1031). O sentido espiritual escapa à percepção superficial que só enxerga as formas. As formas são tímidas e frágeis diante da realidade. Esta tensão entre as formas e a realidade percorrerá toda a reflexão de Rûmî no Masnavi, e servirá igualmente para o seu firme questionamento da escolástica muçulmana (kalam). Em sua visão não é possível um conhecimento fundado na negação da divina providência. Tal conhecimento não gera senão perplexidade. O verdadeiro conhecimento deve estar permanentemente sob o influxo de Deus (M IV, 3728-3729)30. Da mesma forma, a ciência dos exotéricos31 é vivamente questionada por Rûmî. São aqueles que estão limitados às formas exteriores e que se encontram desprovidos de espírito para penetrar na dinâmica da realidade (MI, 1016-1021). Como indica Rûmî, “aquele que olha a espuma fala do mistério, enquanto o que olha para o mar maravilha-se” (M V, 2908). Só aqueles que aprenderam a discernir as coisas do espírito, que se encontram habitados pelo conhecimento intuitivo de Deus (ma´rifa), conseguem ver para além das formas e da espuma (M VI, 1460-1461).

De acordo com a visão de Rûmî, o conhecimento de Deus não é obtido pelo intelecto ou pelo conhecimento discursivo (ilm), mas unicamente pela iluminação divina. E o órgão essencial que faculta esta acolhida é o coração (qalb). Não o órgão de carne e sangue, mas o órgão espiritual e sutil da percepção mística. Na tradição sufi, o coração é o “receptáculo cristalalino e proteico capaz de refletir todas as epifanias ou atributos de Deus: a inesgotável, infinita manifestação da Divindade na morada da união”32. Em linha de continuidade com esta tradição, Rûmî indica que “na gota de sangue do coração encontra-se o dom de uma jóia que Deus não destinou nem aos mares nem aos céus” (MI, 1017). O coração é “o lugar onde se alçam os raios da lua e a abertura das portas (da Realidade) para o místico” (MII, 165). O coração físico, purificado e iluminado pelo amor, deixa de ser um simples órgão de carne e sangue para transformar-se em órgão espiritual que percebe o invisível. Assim como o coração é a luz que confere brilho ao olhar, é a luz de Deus que confere brilho ao coração (MI, 1126-1127).

A contemplação do mistério de Deus possibilitada pela dinâmica do coração exige, antes, a purificação e dilatação deste órgão. Não há como contemplar a morada do totalmente outro quando o coração está obstruído. Só depois de purificado de toda imperfeição é que este órgão passa a refletir o conteúdo profundo do mistério divino (M I, 1394-1396). Trata-se de um processo longo e complexo, que não se realiza sem a presença de um guia (pir)33. Um passo importante para esta purificação é a busca da humildade e do desapego, o constante trabalho de retirada da ferrugem que impede ao coração refletir de forma viva o mistério que nele habita: “Sabes por que teu espelho não reflete? Porque a ferrugem não foi retirada de sua face. Fosse ele purificado de toda ferrugem e mácula, refletiria o brilho do Sol de Deus”. (MP, 19 e MI 34)

Para ilustrar esta idéia, Rûmi desenvolve a história da discussão entre os artistas bizantinos e chineses a propósito da arte da pintura (M I, 3467s). Os dois grupos de artistas discutiam diante do Sultão sobre seus pendores particulares. Os chineses, de um lado, gabavam-se de serem os melhores artistas. Por sua vez, os bizantinos diziam ser portadores da perfeição. Para decidir a disputa, o Sultão destinou dois cômodos de uma casa para serem pintados por cada um. Os dois cômodos estavam um diante do outro. Os chineses dedicaram-se com todo esforço e habilidade na arte de colorir a sua sala. Ao contrário dos chineses, os bizantinos recusaram todas as tintas, e optaram por limpar da melhor forma possível o seu cômodo, retirando dele toda a sujeira e ferrugem. As paredes tornaram-se puras e limpas como o céu. Uma vez terminado o trabalho, os dois grupos sujeitaram-se à inspeção do Sultão. A sala dos bizantinos ganhou o prêmio. Estava tão profundamente polida que ela refletiu em suas paredes todas as cores da outra sala, com uma infindável variedade de tons e matizes. Rûmî serviu-se desta história para ilustrar a importância da purificação de todos os atributos do eu que impedem captar a essência brilhante do próprio sujeito. Os bizantinos são, para Rûmî, como os sufis, que se purificam de todos os desejos. A pureza do espelho polido é como o coração que recebe inumeráveis imagens (MI, 3485). Segundo Rûmî, aqueles que poliram o seu coração escaparam dos perfumes e cores, vindo a contemplar sem cessar a Beleza a cada instante (MI, 3492). É este trabalho que, segundo Rûmî, favorece o auto-esvaziamento místico e a pobreza espiritual (MI, 3497).

Segundo Rûmî, a estação34 mais importante no caminho místico e no trajeto para a Unidade é a pobreza (faqr). Não necessariamente a pobreza de um mendicante ordinário, mas sobretudo o estado no qual o sujeito vive a experiência radical de estar absolutamente pobre diante do Criador ou, como diz o Corão, “pobre de Deus” (35,15)35. Um dos personagens que aparece no Masnavi de Rûmî, e que serve para marcar esta centralidade da pobreza, é Ayás, o favorito do célebre rei Mahmud de Ghazni. Tendo sido escolhido pelo rei, causou inveja aos outros cortesãos. Estes, no intuito de desclassificá-lo , denunciaram ao rei o estranho hábito que Ayas mantinha de retirar-se numa câmara secreta e ali trancar-se. Suspeitavam que guardasse ali moedas roubadas do tesouro, ou vinho e bebidas proibidas.

Na realidade, o que Ayás guardava no cômodo que visitava todos os dias eram seus velhos sapatos e sua roupa rasgada, que costumava usar antes das honras recebidas. Era a forma que encontrava para recordar permanentemente sua origem humilde e evitar o perigoso orgulho, seguindo a pista dada no Corão, de que o ser humano deve considerar o material de que foi criado (86,5). Com essa história Rûmî queria lembrar aos discípulos que a semente de onde procederam é a da própria sandália, do sangue e da veste de lã, sendo todo o resto um dom de Deus (MV, 2115)36.



5. A evidência de Deus



Em toda a obra de Rûmî perpassa a imagem do Deus misericordioso e omnicompassivo (Al-Rahman), de absoluta proximidade (tashbih). Deus, para os muçulmanos, se manifesta sob dois aspectos: da majestade (jalâl) e da beleza (jamâl). Há em Rûmî um acento nesta última dimensão, que pontua o dado da proximidade, do Deus como Amado. Não é possível escapar de sua misericórdia. Deus sempre acompanha o ser humano: “Pelo explendor do meio-dia, e pela noite quando serena, Teu Senhor não te abandonou nem te odeia” (Corão, 93,1-3). Este tema da Sura da Manhã é sempre lembrado por Rûmî: de Deus como um amoroso que toma a mão do arqueiro e lhe inspira o sopro criador. O Deus misericordioso acolhe estreitamente seu servidor e não o abandona um só instante (MII, 2533).

Teu amor chegou a meu coração e partiu feliz.

Depois retornou e se envolveu com o hábito do amor,

mas retirou-se novamente.

Timidamente, eu lhe disse: “Permanece dois ou três dias!”

Então veio, assentou-se junto a mim e esqueceu-se de partir37.

Deus é como o primeiro amor, que não abandona jamais o coração (MII, 2619), e sua graça transborda abundantemente e continuamente sobre o ser humano (MI, 3923). É a água que busca o sedento, antes mesmo que este vá ao seu encontro (MI, 1741). O amante nunca busca o Amado sem ser antes buscado por Ele (MIII, 4393). Na visão de Rûmî, Deus está presente no íntimo do coração: é o sempre-já-aí. O Deus transparente que é diafania mais que epifania. Mas Dele há sempre que recordar, permanentemente. Quando há no coração a presença da centelha do amor de Deus, a correspondência de amor vem imediatamente (MIII, 4396). Para Rûmî, Deus está sempre presente na invocação do fiel. A súplica do amante por Allah corresponde ao “aqui estou” (labbayka) de seu Amado (MIII, 189s). É o que está dito igualmente no Corão: “Recordai-vos de Mim, que eu me recordarei de vós” (2,152).

O importante para o amante é mostrar-se sedento: “Não busques a água; mostra apenas que estás sedento, e a água jorrará ao seu redor” (M III, 3212 e MII, 1940). Rûmî quer mostrar, aqui, a impressionante dimensão da Misericórdia universal de Deus, a mas poderosa força nutriz: “Quando à terra falta calor, o céu manda calor; quando lhe falta umidade e orvalho, o céu os envia” (MIII, 4405). O coração é o decisivo espaço da presença do Mistério. Nem a terra, nem o céu, nem o empíreo podem conter tal presença, mas sim o coração do verdadeiro crente (MI, 2654-2655).

Uma das mais belas passagens do Masnavi relata a história de Moisés e o pastor, que traduz de forma magnífica esta idéia. Certa vez, Moisés ouviu um pastor que rezava de forma espontânea: “Ó Deus, mostra-me onde estás, para que eu possa tornar-me Teu Servo, para que eu amarre Tuas sandálias e que eu penteie Teus cabelos, para que eu lave Tua roupa, mate Teus piolhos, traga Teu leite, oh meu adorado! Que eu beije Tua mão amada, que eu massageie Teu pé amado e no momento de dormir, balance Tua pequena cama. Ó Tu, a quem todas as minhas cabras são ofertadas em sacrifício; ó Tu em quem eu penso, lânguido, pleno de desejo de amor”. Ao ouvir a oração do pastor, Moisés, o profeta legalista, repreende-o severamente, identificando-o como alguém perverso e ímpio, por referir-se ao Deus juiz de forma assim tão familiar e estúpida. Para ele, o grande Deus não necessitava de um semelhante serviço. Diante de tal atitude, o pastor, envergonhado e transtornado, com a alma queimada, rasga suas roupas e retira-se para o deserto. Neste momento, veio do céu uma revelação de Deus a Moisés, que dizia: “Separaste meu servidor de Mim. Eis que viestes para reconciliar meu povo comigo, e não para afastá-lo de mim. De todas as coisas, a mais detestável a meus olhos é o divórcio. Dei a cada povo uma forma de expressão. (…) Não tenho necessidade de seus louvores, estando acima de toda necessidade. (…) Não considero as palavras que são ditas, mas o coração que as oferece, pois o coração é a essência e a palavra acidente. (…) Ó Moisés, aqueles que amam os belos ritos são de uma classe, aqueles cujos corações e almas ardem de amor são de outra. (…) Não é preciso virar-se para a Caaba quando se está nela, e mergulhadores não precisam de sapatos. (…) A religião do amor é diferente de todas as outras religiões, pois para os amantes, Deus é a fé e a religião”. Em seguida, Deus infundiu no íntimo do coração de Moisés os mistérios que palavra humana alguma alcança. As palavras invadiram seu coração, transformando radicalmente sua visão. Após compreender a reprovação de Deus, Moisés corre ao deserto em busca do pastor. Ao encontrar-se com ele, assim se expressa, movido de compaixão: “Não busque regra alguma, nem método de adoração; diga tudo o que seu coração aflito deseja. Tua blasfêmia é a verdadeira religião, e tua religião é a luz do espírito: estás salvo, e graças a ti um mundo inteiro salvou-se igualmente” (MII, 1720-1785).

Com esta bela história de Moisés e o Pastor, Rûmî quer reforçar a idéia da presença graciosa de Deus que age de forma diversificada nos corações, provocando expressões distintas e particulares de acolhimento, para além das rígidas fronteiras traçadas pelas ortodoxias muitas vezes frias e insensíveis. Nada mais importante para Rûmî do que a gratuidade do amor a Deus, um amor que é auto-finalizado; um amor que existe não em função de um temor ou de uma esperança, mas que encontra em Deus mesmo sua razão de ser (MIII, 1910-1913; 4595-4599).

6. Uma religião do amor

O amor é um dos temas mais importantes na obra de Rûmî, objeto de seus poemas mais ricos e singelos. Para ele, o amor é “o astrolábio dos mistérios de Deus”:

Por mais que se descreva ou se explique o amor,

quando nos apaixonamos envergonhamo-nos de nossas palavras.

A explicação pela língua esclarece a maioria das coisas,

Mas o amor não explicado é mais claro.

Quando a pena se apressou em escrever,

Ao chegar no tema do amor, partiu-se em duas.

Quando o discurso tocou na questão do amor,

A pena partiu-se e o papel rasgou-se.

Ao explicá-lo, a razão logo empaca, como um asno no atoleiro;

Nada senão o próprio Amor pode explicar o amor e os amantes (MI,112s).

Para Rûmî, como já visto anteriormente, o amor é expressão da nostalgia da separação original. Trata-se de uma sede metafísica que anseia pela unidade. O amor humano é etapa e ponte que traduz uma caminhada mais complexa em direção ao Amado. O amor é, para Rûmî, um “estado de alma” que conduz ao horizonte do amor divino e aponta o caminho. Daí sua convicção da importância da religião do amor como a mais sublime forma de todas as religiões. O amor é “o único lugar, o único ponto capaz de religar o eu do ser humano e o mundo da unidade, que é o mundo da divindade”38.

Na visão de Rûmî, o Amado sempre escapa ao conhecimento: ele foge continuamente do que é incerto e impermanente. Assume formas diversas e se revela onde menos se espera. Mas é sobretudo no coração que ele mostra sua presença ativa. Para Rûmî, a substância da árvore da vida e do conhecimento está para além das formas superficiais. “Ela tem milhares de nomes, mas é Uma, – corresponde a todas as suas descrições, mas é indescritível”. Ela frustra aquele que busca simplesmente nomes, pois diz respeito a qualidades. Para Mevlana, a razão do desacordo entre os seres humanos, dos conflitos que dividem os povos, está no apego radical aos nomes. Se estivessem, ao contrário, voltados para a realidade, a paz seria alcançada (MII, 3680)39.

Rûmî foi sempre considerado um dos místicos mais abertos para a dinâmica inter-religiosa. Trata-se de um verdadeiro apóstolo da abertura ao outro. A pluralidade inter-religiosa vem por ele reconhecida: “É impossível termos aqui uma única religião, exceto no dia do Juízo Final, quando todos os homens forem um único ser e se dirigirem a um único lugar”40. Mas esta diversidade existe em razão das formas que são distintas, mas o significado último é sempre o mesmo, pois Deus é único. E se o significado é sempre o mesmo, uma vez que o objeto do louvor é, na verdade, só Um, pode-se concluir que “todas as religiões são uma só religião” (MIII, 2123)41. O mistério de Deus é como o raio de luz que bate sobre um muro, ou como a lua que reflete num poço. Os seres humanos muitas vezes dedicam o seu louvor não à realidade da lua, que está no céu, mas à sua imagem refletida no poço, o que leva às discórdias, diferenças e impiedade (MIII, 3127-3132).

Na compreensão de Rûmî, a verdadeira religião distingue-se muitas vezes da religião meramente formal. Como habita no coração do crente verdadeiro, ela traduz um determinado estado da mente, marcado pela humildade e pela dinâmica compassiva. A experiência religiosa autêntica é aquela que bebeu na fonte de um mundo que está para além das palavras, que conformou um novo sentimento, traduzido numa paisagem distinta. Para Rûmî, “as palavras santas não permanecem nos corações cegos e obstinados, mas retornam à luz de onde procederam” (MII, 316). Na realidade, a verdade pode ser falsa quando não habitada pelo Amado.

Por mais que repitas expressões piedosas,

Se és um tolo, elas em nada te afetam; -

Não, nem que as coloques por escrito,

Ou as proclames com alarde;

A sabedoria afasta sua face de ti, ó homem pecador,

A sabedoria aparta-te de ti e foge! (MII, 317-320)42.

A religião do amor é aquela que vem sempre acompanhada das boas ações. Mais

importante do que as expressões da fala é a realidade de afirmação de um sentido reto. Na visão de Rûmî, as más ações constituem expressão de um coração corrompido, produzindo um hálito negativo junto às narinas de Deus (MIII, 169). Quando há pureza na experiência de louvor a Deus, a impureza se levanta e vai embora (MIII, 186). Não há, segundo Rûmî, melhor companheiro do que as obras para atravessar a existência. Nem os amigos, nem todas as riquezas e bens da terra conseguem acompanhar o ser humano para além da tumba, mas sim a excelência de suas ações (MV, 1045-1047). Deus é melhor invocado com a língua dos atos, pois a língua das palavras é frágil (MV, 1044). O amor, como indica Rûmî no Rubâi´yât, é o fiel escudeiro do ser humano nos tempos de sua avaliação derradeira:

No dia da Ressurreição, homens e mulheres comparecerão

pálidos e trêmulos de medo para o julgamento final.

Eu apresentarei o teu amor em minhas mãos e Te direi:

Interrogue-o, ele te responderá.



7. Conclusão

Não constitui tarefa simples traduzir a reflexão mística de Rûmî. Toda a sua obra vem desenvolvida com linguagem resguardada pela presença de um simbolismo complexo, de contos esotéricos e significação escondida. A linguagem esotérica, como lembra Pablo Beneíto, é uma linguagem técnica pontuada pela inspiração mística. Trata-se de uma linguagem alusiva, distinta do comentário exotérico do significado explícito. Ela “desempenha uma função fundamental e constitui um procedimento insubstituível no processo de transmissão de experiência imediata ou compreensão interna”43. Foram inúmeros anos dedicados por Rûmî à redação de sua extensa obra poética, que culmina no grandioso Masnavi. Muitos de seus poemas foram compostos em estado de grande inspiração mística, e foram ditados, cantados e recitados para os seus discípulos que os guardavam na memória para depois serem escritos. Há em alguns de seus livros, e em particular no Masnavi e no Fihi-ma-fihi, uma impressionante combinação de imaginação poética e argumentação lógica que não seguem necessariamente um fio condutor retilínio. Talvez por isso, como lembrou José Jorge de Carvalho, “a seqüência de imagens de alguns dos seus gazéis pareça, às vezes, ao leitor um tanto errática, livre, quase bizarra à primeira vista, a exigir uma segunda ou terceira leitura para que o campo das associações possa revelar sua coerência, permitindo uma melhor apreciação de sua estranha beleza. Todavia, apesar da extrema liberdade do seu processo de composição e da singularidade de muitas de suas imagens, impressiona a transparência da mensagem poética e doutrinal de Rûmî”44.

Quando se toma como referência sua obra fundamental, o Masnavi, que foi talvez o ponto de apoio mais importante na redação deste artigo, percebe-se que ele apresenta uma síntese pessoal reelaborada de quase todas as teorias místicas conhecidas no séc. XIII. Mas de uma tal complexidade que dificulta, quando não impossibilita, a edificação teórica de um sistema místico propriamente dito a partir de suas narrações e parábolas45. As noções esotéricas estão pontuadas nos dois níveis, simbólico e explicativo, presentes no Masnavi. A recorrente linguagem simbólica e alusiva serve também como instrumento para resguardar os mistérios da Realidade suprema. Um dos traços que mais impressionam na leitura de sua obra é a forma peculiar e única com a qual ele expressa a presença do fiel diante do mistério inesgotável de Deus, do fiel que, mesmo desconhecendo a chave de acesso à sua presença, coloca-se à sua sombra: “Um dia, um homem chegou diante de uma árvore. Viu folhas, ramos, frutos estranhos. A cada um perguntou o que eram essas árvores e esses frutos. Nenhum jardineiro o compreendeu, nem sabia o nome da árvore, nem lhe pôde indicar o que ela poderia ser. O homem disse a si mesmo: Se não posso compreender que árvore é essa, contudo sei que, depois que deitei meu olhar sobre ela, meu coração e minha alma se tornaram frescos e verdes. Vou então me colocar a sua sombra.”46

A presença deste mistério na vida de Rûmî é tão impressionante que só o silêncio é capaz de dar conta da lâmina de seu conteúdo. Muitos de seus poemas terminam conclamando o silêncio:

Silêncio!

E depois mais silêncio.

Não use a boca para falar.

A boca é para provar dessa doçura47

O discurso é pobre face ao explendor do mistério. Ele recua diante da luz. É como o anjo Gabriel na viagem noturna: não consegue acompanhar o trajeto do profeta Mohammad diante da força e o vigor da presença do Mistério48. Guarda-se o silêncio para ver mais claramente, para ouví-Lo falar (MIII, 1305-1307). Segundo Rûmî, “aquilo que um só olhar percebe, é impossível de manifestar pela língua ao longo dos anos” (MIII, 1994). Não há como expressar com palavras as alegrias da união com o Amado. Sobre os lábios dos santos, indica Rûmî, há um ferrolho, mas em seu coração habitam inúmeros mistérios: “seus lábios são silenciosos, embora seu coração esteja repleto de vozes” (MV,2238).

Na visão de Rûmî, a experiência interior do Amado transforma o sentimento e muda a paisagem. Toda a sua obra é um convite para captar este mundo impermeável às palavras, um convite para lavar as mãos e o rosto “nas águas deste lugar”49. É no aprendizado deste lugar que se firma a alma dos nobres, dos que buscam a pureza, dos que conseguem captar e tornar explêndidos cada som dissonante. Ao contrário dos exotéricos, “comedores de argila”, os sufis verdadeiros buscam ardentemente a essência. Para Rûmî, é a alma nobre que perdura. As palavras são acidentes efêmeros, que passam. “As preces rituais, a guerra santa, os jejuns não perdurarão, mas sim o espírito (que habita a pessoa iluminada)” (MV, 249).



Nascido na Risada


O Zen é a floração suprema da consciência. Ele começa com Gautama Buda entregando uma flor de lótus a Mahakashyapa.



Certa vez, um homem pegou uma flor e, sem uma palavra, segurou-a diante dos homens sentados em círculo ao redor dele. Cada homem por sua vez olhou para a flor e então explicou seu significado, sua importância, tudo o que ela simbolizava. O último homem, entretanto, vendo a flor, não disse nada, somente sorriu. O homem no centro então sorriu também e, sem uma palavra, entregou-lhe a flor. Essa é a origem do Zen.



Certa vez, Buda estava para fazer uma preleção e milhares de discípulos vieram de um raio de muitos quilômetros. Quando Buda apareceu, ele vinha segurando uma flor. O tempo passou, mas Buda não dizia nada, ele apenas olhava para a flor. A multidão ficou impaciente, mas Mahakashyapa, que não conseguiu se segurar por mais tempo, deu uma risada. Buda acenou-lhe para que se aproximasse, entregou-lhe a flor e disse à multidão: "Tudo o que podia ser dado a vocês com palavras eu já lhes dei; mas com esta flor dou a Mahakashyapa a chave de todos os ensinamentos".



A chave de todos os ensinamentos, não apenas para um Buda mas para todos os mestres - Jesus, Mahavira, Lao Tzu -, não pode ser dada por meio da comunicação verbal. A chave não pode ser entregue por intermédio da mente; nada pode ser dito sobre ela. Quanto mais você falar mais difícil fica a entrega, porque você e um buda vivem em dimensões tão diferentes - não só diferentes mas diametralmente opostas - que, seja lá o que for que um buda diga, ele será mal interpretado.



Ouvi dizer que uma noite três mulheres meio surdas se encontraram na rua. Ventava muito naquele dia, assim uma mulher disse: "Tarde ventosa". A outra disse: "Uma cama gostosa? Não, prefiro dormir na rede".



E a outra disse: "Sede? Eu também estou, vamos então ao restaurante tomar uma xícara de chá".



Isso é o que acontece quando um buda diz alguma coisa a você. Ele diz: "Tarde ventosa?" e você diz: "Uma cama gostosa? Não, prefiro dormir na rede".



O ouvido físico está bom, está faltando o ouvido espiritual. Um buda só consegue falar com outro buda, esse é o problema - e com outro buda não há necessidade de falar. Um buda precisa falar com aqueles que não são iluminados. Com eles existe a necessidade de falar e se comunicar, mas a comunicação então é impossível.



Duas pessoas ignorantes podem conversar. Elas falam muito; não fazem outra coisa além de conversar. Duas pessoas iluminadas não podem conversar - seria absurdo. A conversa entre duas pessoas ignorantes não tem nenhum significado porque não há nada para ser transmitido. Elas não sabem nada que possa ser dito, que deveria ser dito, mas elas continuam falando. Estão tagarelando. Não podem evitar isso; é apenas uma catarse maluca, uma liberação.



Duas pessoas iluminadas não podem conversar porque elas sabem a mesma coisa. Nada precisa ser dito. Somente uma pessoa iluminada e uma pessoa não iluminada podem ter uma comunicação significativa, porque um sabe e o outro ainda está na ignorância. Uma comunicação significativa, eu digo. Não digo que a verdade possa ser transmitida. Mas algumas sugestões, algumas indicações, alguns sinais podem ser comunicados, de tal forma que o outro fique pronto para dar o salto. A verdade não pode ser transmitida, mas a sede por ela pode ser dada. Nenhum ensinamento valioso pode entregar a chave por meio de palavras.



O Buda falava - é difícil encontrar uma outra pessoa que falasse tanto. Estudiosos têm examinado todos os escritos que estão em nome de Buda, e parece um feito impossível, porque depois de sua iluminação ele viveu apenas quarenta anos, andando de aldeia em aldeia.



Ele andou por toda a província de Bihar na índia, que recebeu esse nome porque Buda passou por lá. Bihar significa os caminhos por onde andou Buda. A província inteira é chamada de Bihar porque esse é o limite por onde Buda andou - seu bihar, suas andanças.



Ele andava continuamente; somente na estação das chuvas ele descansava. Muito tempo era gasto andando, além disso, ele também precisava dormir. Então os estudiosos que estiveram calculando dizem; "Isso parece impossível. Dormindo, andando, cumprindo todas as outras rotinas diárias - há tantos escritos, como ele pode ter falado tanto? Se ele tivesse falado continuamente durante quarenta anos, sem um único intervalo, só dessa maneira tudo isso poderia ter sido dito". Ele deve ter falado tanto - quase continuamente - e ainda assim ele disse que a chave não pode ser transmitida por palavras.



A história a seguir, é uma das histórias mais significativas, porque dela nasceu a tradição do Zen. Buda foi a fonte e Mahakashyapa foi o primeiro, o mestre original do Zen. Buda foi a fonte, Mahakashyapa foi o primeiro mestre, e esta história é a fonte de onde toda a tradição - uma das mais belas e vividas que existem no mundo, a tradição do Zen – começou.



Tente compreender esta história. Certa manhã Buda chegou, e como sempre uma multidão tinha se reunido, muitas pessoas esperavam para ouvi-lo. Mas uma coisa era fora do comum - ele estava levando uma flor na mão. Nunca antes ele carregara nada nas mãos. As pessoas pensaram que alguém a tinha dado de presente a ele. Buda chegou, sentou-se embaixo de uma árvore. A multidão esperou e esperou e ele não falou. Ele nem mesmo olhava para as pessoas, ele somente continuava a olhar para a flor. Os minutos se passaram, então as horas, e elas ficaram muito inquietas.



Conta-se que Mahakashyapa não pôde se conter. Ele riu alto. Buda chamou-o, deu-lhe a flor e disse para a multidão reunida: "Tudo o que podia ser dito por palavras eu já disse a vocês, e o que não pode ser dito por palavras eu dei a Mahakashyapa. A chave não pode ser comunicada verbalmente. Eu passei a chave para Mahakashyapa".



Isso é o que os mestres do Zen chamam de "transmissão da chave sem escritura" - além da escritura, além das palavras, além da mente. Ele deu a flor a Mahakashyapa e ninguém conseguiu entender o que tinha acontecido. Nem Mahakashyapa nem Buda jamais comentaram sobre isso novamente. O capítulo inteiro estava encerrado. Desde então, na China, no Tibete, na Tailândia, em Burma, no Japão, no Ceilão - em todos os lugares - os budistas têm perguntado durante esses vinte e cinco séculos: "O que foi dado a Mahakashyapa? Qual era a chave?"



A história toda parece ser muito esotérica. Buda não era reservado; esse foi o único incidente... Buda era um ser muito racional. Ele falava racionalmente, ele não era um louco arrebatado, ele argumentava racionalmente e sua lógica era perfeita - não se consegue descobrir uma falha nela. Esse foi o único incidente em que ele se comportou ilogicamente, em que ele fez algo misterioso. Ele não era nem um pouco misterioso. Ninguém consegue encontrar outro mestre que tenha sido menos misterioso.



Jesus era muito misterioso. Lao Tzu era absolutamente misterioso. Buda era simples, transparente; nenhum mistério o cerca, nenhuma fumaça é permitida. Sua chama arde clara e brilhante, absolutamente transparente, sem fumaça. Essa era a única coisa que parecia misteriosa. Ele não era nem um pouco misterioso; por isso muitos escritos budistas nunca relataram essa história, eles simplesmente a suprimiram. Parecia que alguém a tinha inventado. Não fazia nenhum sentido com a vida e os ensinamentos de Buda.



Mas para o Zen, essa é a origem. Mahakashyapa tornou-se o primeiro portador da chave. Então seis portadores da chave viveram sucessivamente na Índia, até Bodhidharma, que foi o sexto portador da chave.



Para mim, se todos os escritos de Buda desaparecerem não se perderá nada. Somente essa história não deveria desaparecer. Essa é a mais preciosa, embora os estudiosos a tenham suprimido da biografia de Buda. Eles dizem: "Isso é irrelevante; não combina com Buda". Mas eu digo a vocês, a maior parte do que Buda fez era apenas normal, qualquer um poderia fazê-lo, mas isso é extraordinário, isso é excepcional. Somente um buda pode fazer isso.



O que aconteceu naquela manhã? Vamos analisá-la. Buda chegou, sentou-se e começou a olhar para a flor. O que ele estava fazendo? Quando Buda olha para qualquer coisa, a qualidade de sua consciência é transmitida. E uma flor é uma das coisas mais receptivas do mundo. Por isso, hindus e budistas levam flores para pôr aos pés do mestre ou no templo, porque a flor pode carregar alguma coisa de sua mente.



A flor é uma coisa muito receptiva e, se tiver conhecimento de uma pesquisa recente no Ocidente, você entenderá isso. Atualmente, dizem que as plantas são mais sensíveis do que os seres humanos. A flor é o coração da planta, todo o ser vai dentro dela. Muitas pesquisas estão sendo feitas na Rússia, nos Estados Unidos, na Inglaterra, sobre a sensibilidade das plantas, e algumas coisas maravilhosas têm sido descobertas.



Um homem, um cientista, estava estudando as plantas - como elas sentem, se elas sentem alguma coisa ou não, se elas têm emoções ou não. Ele estava observando uma planta com eletrodos fixados nela para detectar qualquer movimento em seu interior, qualquer sensação, quaisquer emoções. Ele pensou: "Se eu cortar esta planta, se eu arrancar um galho ou arrancá-la da terra, o que acontecerá?" De repente, a agulha que traçava o gráfico pulou. Ele não tinha feito nada, apenas tinha tido um pensamento: "Se eu arrancasse esta planta..." A planta ficara com medo da morte e a agulha saltara, registrando que a planta estava tremendo. Até o cientista ficou assustado porque ele não tinha feito nada - apenas um pensamento e a planta o tinha captado. As plantas são telepáticas.



Não apenas isso, mas, se você pensa em cortar uma planta, todas as outras plantas ao redor dessa área ficam emocionalmente perturbadas. Também, se alguém tiver cortado uma planta e entrar nesse jardim, todas as plantas ficarão perturbadas porque esse homem não é bom e elas carregam essa lembrança. Todas as vezes em que esse homem entra no jardim, o jardim inteiro sente que uma pessoa perigosa está entrando. Agora, alguns cientistas acham que as plantas podem ser usadas para comunicação telepática, porque elas são mais sensíveis que a mente humana.



No Oriente, sempre se soube que a flor é a coisa mais receptiva que existe. Quando Buda olhou para a flor e continuou a olhar para a flor, alguma coisa dele se transferiu para essa flor. Buda entrou na flor. A qualidade do seu ser - a prontidão, a percepção, a paz, o êxtase, a dança interior - tocaram a flor. Com o Buda olhando para a flor - tão calmo, à vontade, sem nenhum desejo -, a flor deve ter dançado em seu ser interior. Buda olhou, a fim de transferir alguma coisa para a flor. Somente a flor e ele existiam - por um longo período, o resto do mundo desapareceu. Somente Buda e a flor estavam lá. A flor entrou no ser do Buda, e Buda entrou no ser da flor.



Então a flor foi dada a Mahakashyapa. Agora já não era apenas uma flor. Ela carregava a condição de Buda, ela carregava a qualidade interior do ser de Buda. E por que para Mahakashyapa? Havia outros grandes seguidores. A História registra dez grandes discípulos; Mahakashyapa era apenas um, e ele foi incluído entre os dez somente por causa dessa história; caso contrário, ele jamais teria sido incluído.



Não se sabe muito sobre Mahakashyapa. Lá havia grandes seguidores, como Sariputta - você não conseguiria encontrar um intelecto mais afiado. Moggalayan também estava lá, um grande estudioso; ele guardava na memória todos os Vedas, e nada do que já tivesse sido escrito era desconhecido para ele. Ele mesmo um grande lógico, Moggalayan tinha milhares de discípulos. E havia outros. Ananda estava lá, primo-irmão de Buda, que durante quarenta anos acompanhou-o continuamente. Mas não, alguém que era desconhecido anteriormente - Mahakashyapa - de repente se tornou muito importante. Toda a gestalt se modificou. Todas as vezes em que Buda estava falando, Sariputta era o homem importante porque ele conseguia entender melhor as palavras do que qualquer outra pessoa, e quando Buda estava argumentando, Moggalayan era o homem importante. Ninguém notava muito Mahakashyapa. Ele permanecia na multidão, ele fazia parte da multidão.



Mas, quando Buda ficou calado, toda a gestalt se modificou. Agora Moggalayan e Sariputta não tinham importância; eles simplesmente deixaram de existir como se não estivessem lá. Eles passaram a fazer parte da multidão. Um novo homem, Mahakashyapa, tornou-se o mais importante. Uma nova dimensão se abriu. Todos estavam inquietos, pensando: "Por que Buda não está falando? Por que ele está guardando silêncio? O que vai acontecer? Quando irá acabar?" Eles estavam pouco à vontade, inquietos.



Mas Mahakashyapa não estava se sentindo pouco à vontade ou inquieto. Ao contrário, pela primeira vez ele estava à vontade com Buda; pela primeira vez ele se sentia em casa com Buda. Quando Buda falava, ele podia se sentir inquieto. Ele podia ter pensado: "Por que essa tolice? Por que continuar falando? Nada está sendo transmitido, nada está sendo compreendido; por que continuar batendo com a cabeça na parede? As pessoas são surdas. Elas não conseguem entender..." Ele devia ficar inquieto quando Buda falava, e agora, pela primeira vez, ele estava à vontade. Ele conseguia entender o que era o silêncio.



Havia milhares de pessoas lá e todas estavam inquietas. Ele não pôde se conter, percebendo a insensatez da multidão. Elas ficavam calmas quando Buda estava falando; e agora elas ficavam inquietas quando ele estava em silêncio. Quando alguma coisa poderia ser transmitida, elas não estavam abertas para isso; quando nada poderia ser transmitido, elas ficavam esperando. Por meio do silêncio, Buda podia dar alguma coisa que é imortal, mas elas não conseguiam entender. Assim ele não conseguiu se conter e riu alto - riu de toda a situação, do absurdo.



Mahakashyapa riu da insensatez das pessoas. Elas estavam inquietas e pensando: "Quando Buda irá se levantar e deixar de lado todo este silêncio de forma que possamos ir para casa?" Ele riu. A risada começou com Mahakashyapa e prosseguiu mais e mais na tradição do Zen. Não há nenhuma tradição que consiga rir. A risada parece tão irreligiosa, profana, que você não consegue imaginar Jesus rindo, você não consegue imaginar Moisés rindo. É até mesmo difícil imaginar Moisés dando uma gargalhada ou Jesus rindo ruidosamente. Não, a risada era negada. A tristeza, de algum modo, tornou-se religiosa.



Um dos mais famosos pensadores alemães, Count Keyserling, escreveu que a saúde é irreligiosa. A doença tem uma religiosidade em torno dela porque uma pessoa doente é triste, sem desejos - não porque ela tenha ficado apática, mas porque está fraca. Uma pessoa saudável vai rir, quer se divertir, será feliz - ela não consegue ser triste. Assim, as pessoas religiosas têm tentado de muitas formas fazer você se sentir doente: incentivam o jejum, oprimem seu corpo, torturam você. Você vai ficar triste, com tendências suicidas, crucificado em seu próprio ser. Como você pode rir? A risada vem da saúde. É um transbordamento de energia. É por isso que as crianças conseguem rir e sua risada é por inteiro. Todo o corpo delas ri - quando elas riem você pode ver seus dedos do pé rindo. Seu corpo inteiro - cada célula, cada fibra do corpo - está rindo e vibrando. Elas são tão cheias de energia, tão vitais; tudo está fluindo.



Uma criança triste é uma criança doente, e um velho sorridente ainda é jovem. Nem a morte pode fazer dele um velho; nada pode envelhecê-lo. Sua energia ainda está fluindo e transbordando, ele está sempre preenchido. A risada é uma torrente de energia.



Nos mosteiros zen, eles dão risadas e mais risadas. A risada tornou-se uma prece apenas no Zen, porque Mahakashyapa começou isso. Vinte e cinco séculos atrás, em uma manhã como esta, Mahakashyapa começou uma nova tendência, absolutamente nova, antes desconhecida para a mentalidade religiosa - ele riu. Ele riu da tolice, da estupidez. E Buda não o condenou; ao contrário, ele o chamou para perto de si, deu-lhe a flor e falou para a multidão.



E quando a multidão ouviu a risada deve ter pensado: "Este homem está ficando louco. Este homem está desrespeitando Buda, porque como pode alguém rir diante de um buda? Quando um buda está sentado silenciosamente, como pode alguém rir? Este homem não está respeitando".



A mente dirá que isso é um desrespeito. A mente tem suas regras, mas o coração não as conhece; o coração tem suas próprias regras, mas a mente nunca ouviu falar delas. O coração pode rir e ser respeitoso. A mente não pode rir, só pode ser triste e então respeitosa. Mas que espécie de respeito é esse, que não permite rir? Uma nova tendência começou com a risada de Mahakashyapa, e pelos séculos a risada continuou.



Somente os mestres do Zen, os discípulos do Zen, riem. Por todo o mundo, as religiões ficaram doentes porque a tristeza se tornou proeminente. Os templos e as igrejas parecem cemitérios; não têm aparência festiva, não dão uma idéia de celebração. Se você entra numa igreja, o que vê lá dentro? Não a vida, mas a morte - lá, Jesus pregado na cruz completa a tristeza. Você consegue rir numa igreja, dançar numa igreja, cantar numa igreja? Sim, há cânticos, mas são tristes, e as pessoas permanecem com os rostos entristecidos. Não é de admirar que ninguém queira ir à igreja - é apenas um dever social a ser cumprido. Não é de admirar que ninguém seja atraído pela igreja - é uma formalidade. A religião tornou-se um programa de domingo. Durante uma hora você consegue agüentar ficar triste.



Mahakashyapa riu diante de Buda, e desde então os monges e mestres do Zen têm feito coisas que as pretensas mentes religiosas não podem nem mesmo conceber. Se você já viu qualquer livro zen, deve ter visto mestres do Zen retratados ou pintados. Nenhuma pintura é realista. Se você olhar a figura de Bodhidharma ou a de Mahakashyapa, não há verdade em suas faces, mas basta olhar para eles que você sentirá vontade de rir. Eles são hilários, são ridículos.



Observe as imagens de Bodhidharma. Ele deve ter sido um dos homens mais bonitos que já existiram; é impossível que ele não fosse assim, porque sempre que um homem fica iluminado uma beleza desce sobre ele, uma beleza que vem do além. Uma bênção envolve todo o seu ser. Mas olhe a imagem de Bodhidharma. Ele parece feroz e perigoso. Ele parece tão perigoso que você vai ficar com medo se ele aparecer para visitá-lo durante a noite - nunca mais você vai conseguir dormir! Ele parece tão perigoso, como se fosse matar alguém. Tratava-se apenas de discípulos rindo de seu mestre, criando um retrato ridículo que parece uma caricatura.



Todos os mestres do Zen são retratados de modo ridículo. Os discípulos gostam disso. Mas essas imagens carregam a mensagem de que Bodhidharma é perigoso, que, se você for até ele, ele vai matá-lo, que você não consegue fugir dele, que ele vai persegui-lo e caçá-lo. Para qualquer lugar para onde você vá, ele vai estar lá; a menos que consiga matá-lo, ele não vai deixar você em paz. Isso é que é retratado em todos os mestres do Zen, mesmo Buda.



Se você olhar para as figuras de Buda japonesas e chinesas, elas não parecem com o Buda indiano. Foram totalmente mudadas. Se você observar as imagens do Buda indiano, seu corpo é proporcional, como deveria ser. Ele era um príncipe, e então um buda - um homem bonito, perfeito, bem proporcionado. Um Buda barrigudo? Ele nunca teve uma barriga grande. Mas no Japão, em suas imagens e em seus escritos, ele é retratado com uma barriga grande, porque um homem que ri tem de ter uma barriga grande. Um homem que dá gargalhadas - como se pode representá-lo com uma barriga pequena? Não dá. Eles estão fazendo uma brincadeira com Buda e disseram cada coisa sobre Buda! Somente um amor muito profundo pode fazer isso, do contrário vai parecer um insulto.



O mestre zen Bankei sempre insistia em ter um quadro de Buda pendurado atrás dele e, falando com seus discípulos, dizia: "Olhem para este sujeito. Quando encontrarem com ele, matem-no imediatamente; não lhe dêem nenhuma chance. Enquanto estiverem meditando, ele aparecerá para perturbar vocês. Quando enxergarem seu rosto na meditação, matem-no nesse exato momento; caso contrário, ele irá persegui-los". E ele costumava dizer: "Olhem para este sujeito! Se vocês repetirem o nome dele" - porque os budistas seguem repetindo, Namo Budaya, namo Budaya -, "se vocês repetirem o nome dele, então lavem a boca". Essa declaração parece um insulto. É o nome de Buda e esse homem diz: "Se vocês o repetirem, a primeira coisa a fazer é lavar a boca. A boca de vocês ficou suja".



Mas ele está certo - porque palavras são palavras; seja ou não o nome de Buda não faz a menor diferença. Quando uma palavra passa por sua mente, ela se torna suja. Lave até mesmo o nome de Buda.



E esse homem, mantendo sempre atrás dele o retrato de Buda, curvava-se diante dele todas as manhãs. Então os discípulos perguntaram: "O que está fazendo? Você nos diz para matar este homem, não permitir que ele permaneça no caminho. Você diz: 'Não usem o seu nome, não o repitam; se isso acontecer com vocês, lavem a boca'. E agora nós o vemos curvando-se diante dele!"



Bankei disse: "Tudo isso me foi ensinado por este sujeito, assim eu tenho de prestar-lhe meus respeitos".



Mahakashyapa riu - e sua risada carregava muitas dimensões dentro dela. Uma dimensão era rir da tolice de toda aquela situação, do silêncio do Buda e ninguém o compreendendo, todos esperando que ele falasse. Sua vida inteira Buda passou dizendo que a verdade não pode ser dita, e ainda assim as pessoas esperavam que ele falasse. A segunda dimensão - ele riu de Buda também, de toda a situação dramática que ele havia criado, sentado ali com uma flor na mão, olhando para a flor, criando tanto desconforto e inquietação em todos. E ele riu muito desse gesto teatral de Buda.



A terceira dimensão foi rir de si mesmo. Por que ele não tinha conseguido compreender até aquele momento? A coisa toda era fácil e simples. E no dia em que você compreender, você vai rir também, porque não há nada para ser compreendido. Não há nenhuma dificuldade a ser resolvida. Tudo foi sempre simples e claro. Como você não viu isso antes?



Com Buda sentado em silêncio, os pássaros cantando nas árvores, a brisa soprando e todo mundo inquieto, Mahakashyapa compreendeu.



O que foi que ele compreendeu? Ele compreendeu que não há nada para ser compreendido, não há nada para ser dito, não há nada para ser explicado. Toda a situação é simples e transparente.



Não há nada escondido nela. Não há necessidade de procurar, porque tudo o que existe está aqui e agora, dentro de você. Ele riu dele mesmo também, de todo o absurdo esforço de muitas vidas apenas para compreender o silêncio - ele riu de tanta reflexão.



Buda o chamou, deu-lhe a flor e disse: "Por meio desta, eu lhe dou a chave". O que é a chave? O silêncio e a risada são a chave - silêncio dentro, risada fora. E quando a risada surge do silêncio, ela não é deste mundo; é divina.



Quando a risada surge da reflexão, ela é feia; ela pertence a este mundo comum, mundano; não é cósmica. Então você está rindo de alguma outra pessoa, à custa de outra pessoa, e a risada é feia e violenta.



Quando a risada surge do silêncio, você não está rindo à custa de ninguém, está rindo simplesmente de toda a piada cósmica. E ela é realmente uma piada! E é por isso que eu continuo contando piadas... porque as piadas transmitem mais do que qualquer escritura. É uma piada porque, dentro de você, você tem tudo - mas está procurando por toda parte!



O que mais poderia ser uma piada? Você é um rei e age como um mendigo nas ruas - não apenas agindo, não apenas enganando os outros, mas também enganando a si mesmo, pretendendo ser um mendigo. Você tem a fonte de todo o conhecimento e está fazendo perguntas; você tem o eu que sabe e pensa que é ignorante; você tem a imortalidade dentro de você e fica com medo da morte e da doença. Isso realmente é uma piada, e se Mahakashyapa riu, ele fez muito bem.



Mas, com exceção de Buda, ninguém entendeu. Buda aceitou a risada e imediatamente percebeu que Mahakashyapa tinha captado. A qualidade dessa risada era cósmica; ele compreendeu toda a graça da situação. Não havia nada mais indicado para ela. A coisa toda é como se o divino estivesse brincando de esconde-esconde com você. As outras pessoas pensaram que Mahakashyapa fosse um bobo, rindo diante de Buda. Mas Buda achou que esse homem tinha se tornado sábio. Os bobos têm sempre uma sabedoria sutil, e os sábios sempre agem como bobos.



Antigamente, todos os grandes imperadores tinham sempre um bobo na corte. Tinham muitos homens sábios, conselheiros, ministros e primeiros-ministros, mas sempre um bobo. Mesmo que muitos deles fossem inteligentes e sábios, os imperadores de todo o mundo no Ocidente e no Oriente tinham um piadista na corte, um bobo. Por quê? Porque há coisas que os chamados homens sábios não são capazes de entender, que apenas um homem tolo pode entender, porque os sábios podem ser tão tolos que sua esperteza e sua inteligência fecham a mente deles.



O bobo é simples, e necessário porque muitas vezes os chamados sábios não diziam alguma coisa porque tinham medo do imperador. O bobo não tem medo de ninguém. Ele vai falar qualquer coisa sem temer as conseqüências. O bobo é um homem que não vai pensar nas conseqüências. O homem inteligente sempre pensa primeiro no resultado e, então, age. O pensamento vem antes, depois a ação. O homem tolo age; o pensamento nunca vem em primeiro lugar. Quando alguém compreende o fundamental, ele não é como o homem sábio. Ele não pode ser. Ele pode ser como o bobo mas não pode ser como o homem sábio. Quando Mahakashyapa riu, ele era um tolo; mas Buda o entendeu. Mais tarde, os sacerdotes budistas não o compreenderam, por isso omitiram a história inteira.



Essa história foi suprimida de toda a escritura budista porque é sacrilégio rir diante do Buda. Não é bom fazer disso a fonte original de uma grande tradição como o Zen. Já não é um bom precedente que um homem tenha dado risada diante do Buda e também não é uma boa coisa que Buda tenha dado a chave a esse homem e não a Sariputta, Ananda, Moggalayan e outros que eram importantes, significativos. E afinal foram eles, Sariputta, Ananda e Moggalayan, que registraram as escrituras.



Mahakashyapa nunca foi questionado. E mesmo se eles tivessem lhe perguntado, ele não teria respondido. Mahakashyapa nunca foi consultado para verificarem se ele tinha alguma coisa a dizer para ser registrada.



Quando Buda morreu, todos os monges reuniram-se e começaram a anotar o que tinha ou não acontecido. Ninguém perguntou nada a Mahakashyapa. Esse homem deve ter sido descartado pela comunidade. A comunidade inteira deve ter ficado com ciúme. A chave tinha sido dada para esse homem que era um completo desconhecido, que não era um grande discípulo ou autoridade. Ninguém o conhecia antes e, de repente, naquela manhã ele se tornou o homem mais importante por causa de sua risada, por causa do silêncio.



E de uma certa forma eles estavam certos, porque como você vai registrar o silêncio? Você pode registrar palavras, pode registrar o que aconteceu no visível; como você pode registrar o que não aconteceu no visível? Eles sabiam que a flor tinha sido dada a Mahakashyapa, nada mais.



Mas a flor era apenas um recipiente. Havia alguma coisa nela - a condição de buda, o toque do ser interior do buda, a fragrância que não pode ser vista, que não pode ser registrada. A coisa toda dá a impressão de não ter acontecido, ou que tivesse acontecido num sonho.



Aqueles que estavam registrando eram homens ligados à palavra, peritos na comunicação verbal, em conversar, discutir, argumentar. Mas Mahakashyapa nunca foi ouvido novamente. Esta é a única coisa que se sabe a respeito dele, uma coisa tão pequena que as escrituras devem tê-la deixado passar. Mahakashyapa permaneceu em silêncio, e silenciosamente o rio interior tem fluido. A chave tem sido entregue a outros, e a chave ainda está viva, ela ainda abre a porta.



Estes dois são as partes. O silêncio interior - o silêncio tão profundo que não existe vibração em seu ser; você é, mas não há ondas; você é apenas um poço sem ondas, nem ao menos uma onda se levanta; todo o ser silente, imóvel; dentro, no centro, o silêncio - e, na periferia, celebração e risadas. E somente o silêncio pode rir, porque somente o silêncio consegue entender a piada cósmica.



Dessa forma sua vida se torna uma celebração vital, seus relacionamentos tornam- se uma coisa festiva, não importa o que você faça, todo momento é um festival. Você come, e o comer se torna uma celebração; você toma banho, e o banhar-se se torna uma celebração; você fala, e o falar se torna uma celebração; o relacionamento se torna uma celebração. Sua vida exterior fica festiva, não há tristeza nela. Como pode haver tristeza com o silêncio? Mas normalmente você pensa o inverso: pensa que se for calado ficará triste. Normalmente você acha, como é possível evitar a tristeza se ficar calado? Eu lhe digo que o silêncio que existe com a tristeza não pode ser verdadeiro. Alguma coisa saiu errado. Você perdeu o caminho, está fora dos trilhos. Somente a celebração pode dar provas de que o verdadeiro silêncio aconteceu.



O Buda deve ter entendido Mahakashyapa. Ele deve ter sabido quando estava olhando silenciosamente para a flor e todos estavam inquietos, ele deve ter sabido que um único ser que estava lá, Mahakashyapa, não estava inquieto. Buda deve ter sentido o silêncio vindo de Mahakashyapa, mas não quis chamá-lo. Quando ele riu, então Buda o chamou e lhe deu a flor. Por quê? O silêncio é apenas metade disso. Mahakashyapa poderia ter deixado passar se ele tivesse permanecido inocentemente em silêncio e não tivesse rido. E então a chave não teria sido dada a ele. Ele tinha crescido apenas em parte, não florescendo ele ainda não era uma árvore completamente adulta. A árvore estava lá, mas as flores ainda não tinham surgido. Buda esperou.



Agora, vou lhe dizer por que Buda esperou por tantos minutos, por que durante uma ou duas ou três horas ele esperou. Mahakashyapa estava em silêncio, mas estava tentando segurar a risada, estava tentando controlar o riso. Ele estava tentando não rir porque seria muita grosseria: O que Buda iria pensar? O que os outros iriam pensar? Mas então, conta a história, ele não conseguiu se conter mais. Surgiu como uma risada. O fluxo tornou-se muito intenso, e ele não conseguiu contê-lo mais. Quando o silêncio é demais ele se transforma em riso; ele se torna tão intenso que começa a transbordar em todas as direções. Ele riu. Deve ter sido uma risada louca, e nessa risada não havia Mahakashyapa. O silêncio estava rindo, o silêncio tinha florescido.



Então, imediatamente, Buda chamou Mahakashyapa: "Pegue esta flor - esta é a chave. Dei a todos os outros o que podia ser dado em palavras, mas para você eu dou aquilo que não pode ser dado em palavras. A mensagem além das palavras, o mais essencial, eu lhe dou". Buda esperou por aquelas horas para que o silêncio de Mahakashyapa transbordasse. Ele se transformou em risada.

OSHO


O ARQUEIRO ZEN

No silêncio do ser, na expressão terna desse momento que tudo pacifica quando aprendemos a não resistir à Vida, mas através desta fluir com o tempo e com o espaço, deixando que seja Ela a viver em nós, tudo regressa à nota primordial da nossa encarnação, e não mais será necessário lutar, impor, procurar, pois ali, no momento presente onde nada falta, o Universo tudo fará para nos nutrir com a sua manifestação de Abundância, Harmonia e PAZ.



Tal como o arqueiro Zen que, no esticar do arco sem forçar os seus músculos, mantém essa tensão até que algo dispare a flecha sem que este se preocupe com o alvo nem com o tempo certo de soltar a corda, pois é a Vida que conduzirá essa seta aonde ela tiver que chegar e que determinará o momento exacto disso acontecer, também nós teremos que chegar um dia a esse momento de silenciar toda a nossa expressão, vivendo tudo sem tensão, sem um alvo e sem um tempo determinado por nós, e aí a Alma, liberta do ruído e da vontade dos corpos, se manifestará com toda a sua potência e nos consagrará a essa Vida que somos em essência e que aguarda da nossa parte a entrega e a rendição integral ao Pai.



Quando o tiro do arco é disparado com o Coração, a realização da Vontade Maior se plenificará naquele momento que ecoará pela eternidade, mesmo que a seta fique a meio caminho, pois nos gestos do arqueiro, na postura e no soltar da flecha em sintonia com a Vida, algo de profundamente curador acontecerá, tanto para o arqueiro quanto para quem o observa.



Saber reverenciar esse tiro, mesmo que o alvo não seja atingido, pois este na verdade é interno e não externo, é perceber que tudo se manifesta como realidade apenas dentro de nós, e é a partir dessa constatação que a nossa vida mudará radicalmente e passaremos a ser instrumentos do Plano Evolutivo como expressão do verdadeiro Serviço.



Temos apenas como realização do Serviço o Coração. Sem a abertura desse portal, o único que nos compete abrir, pois os outros são assunto da Hierarquia, nada poderemos realizar que seja a expressão real da Vida que pulsa dentro de nós e que aguarda da nossa parte um profundo e sentido SIM, para que se manifeste plenamente num mundo tão carente de Amor. Sem essa abertura, sem esse pulsar que vem do centro da nossa Alma, nada poderemos fazer que seja verdadeiramente real, mesmo que muito possamos construir dentro do mundo formal, pois essa realização não terá sido ungida e consagrada pela VIDA.



Respirar os aromas dessa Vida nesse fluir tépido que tudo silencia, deixando que Esta nos conduza tal como folha solta na corrente de um rio, é largar a espada, despir a armadura, e nus de tudo o que é civilizacional dizer: “Pai, seja feita a tua Vontade, pois nada se sustém para além desta”.



Tornar-nos-emos então seres em plena sintonia com o Pai, entregues nos braços da Mãe Divina e a Esta consagrados pelo Amor do Filho que pulsará através de cada átomo do nosso corpo. E então deixaremos de falar e de escrever sobre as coisas que conhecemos como se nestas estivesse alguma realidade que se sustente por si só, para passarmos a ser Um com Cristo na radiação do Amor Pleno, e com esse Amor qualificando esse falar e esse escrever com a realidade do Coração.



E só quem se encontrar dentro desta manifestação, é que se poderá dizer filho da Nova Terra que desperta.







PAX,



Pedro Elias,

escritor português

Plenitude


Quando finalmente abandonamos a luta para encontrar a plenitude 'no exterior', Não temos para onde ir a Não ser para o nosso interior.É nesse momento de total rendição que a Luz começa a despontar.

(Shakti Gawain)



A alma dos diferentes - Arthur da Távola


... Ah, o diferente, esse ser especial!



Diferente não é quem pretenda ser.

Esse é um imitador do que ainda não foi imitado, nunca um ser diferente.



Diferente é quem foi dotado de alguns mais e de alguns menos em hora, momento e lugar errados para os outros.



Que riem de inveja de não serem assim.

E de medo de não aguentar, caso um dia venham, a ser.



O diferente é um ser sempre mais próximo da perfeição.



O diferente nunca é um chato.

Mas é sempre confundido por pessoas menos sensíveis e avisadas.

Supondo encontrar um chato onde está um diferente, talentos são rechaçados; vitórias, adiadas; esperanças, mortas.



Um diferente medroso, este sim, acaba transformando-se num chato.

Chato é um diferente que não vingou.



Os diferentes muito inteligentes percebem porque os outros não os entendem.



Os diferentes raivosos acabam tendo razão sozinhos, contra o mundo inteiro.

Diferente que se preza entende o porque de quem o agride.

Se o diferente se mediocrizar, mergulhará no complexo de inferioridade.



O diferente paga sempre o preço de estar - mesmo sem querer - alterando algo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores.



O diferente suporta e digere a ira do irremediavelmente igual: a inveja do comum; o ódio do mediano.



O verdadeiro diferente sabe que nunca tem razão, mas que está sempre certo.



O diferente começa a sofrer cedo, já no primário, onde os demais de mãos dadas, e até mesmo alguns adultos por omissão, se unem para transformar o que é peculiaridade e potencial em aleijão e caricatura.

O que é percepção aguçada em: "Puxa, fulano, como você é complicado".



O que é o embrião de umestilo próprio em: "Você não está vendo como todo mundo faz?"



O diferente carrega desde cedo apelidos e marcações os quais acaba incorporando.



Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformaram (e se transformam) nos seus grandes modificadores.



Diferente é o que vê mais longe do que o consenso.

O que sente antes mesmo dos demais começarem a perceber.

Diferente é o que se emociona enquanto todos em torno agridem e gargalham.

É o que engorda mais um pouco; chora onde outros xingam; estuda onde outros burram.

Quer onde outros cansam.

Espera de onde já não vem.

Sonha entre realistas.

Concretiza entre sonhadores.

Fala de leite em reunião de bêbados.

Cria onde o hábito rotiniza.

Sofre onde os outros ganham.

Diferente é o que fica doendo onde a alegria impera.

Aceita empregos que ninguém supõe.

Perde horas em coisas que só ele sabe importantes.

Engorda onde não deve. Diz sempre na hora de calar. Cala nas horas erradas. Não desiste de lutar pela harmonia. Fala de amor no meio da guerra. Deixa o adversário fazer o gol, porque gosta mais de jogar do que de ganhar.



Ele aprendeu a superar riso, deboche, escárnio, e consciência dolorosa de que a média é má porque é igual.



Os diferentes aí estão: expressivos de mais, sensiveis de mais, com cabelos muito compridos, carecas, enfermos, paralíticos, machucados, engordados, magros demais, inteligentes em excesso, bons demais para aquele cargo, excepcionais, narigudos, barrigudos, joelhudos, de pé grande, de roupas "erradas", cheios de espinhas, de malícia, sensuais, intensos, exigentes e seletivos, aqueles q preferes livros à revistas...etc...

Aí estão, doendo e doendo, mas procurando ser, conseguindo ser, sendo muito mais.



A alma dos diferentes é feita de uma luz além.

Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os pouco capazes de os sentir entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são capazes. Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja suficientemente forte para suporta-lo depois."

A DOENÇA COMO CAMINHO


 De uma maneira geral, a saúde é encarada como se fosse um estado de não doença, de não mal estar ou dor, quando o indivíduo pode continuar a levar a sua vida sem grandes alterações ou questionamentos. É muito mais fácil tomar um medicamento para aliviar uma dor de cabeça, do que compreender a mensagem que o organismo está sinalizando. Somos muito imediatistas, tratamos apenas das aparências, não buscamos a origem ou as causas de nossa doença. O corpo humano possui uma inteligência fisiológica cuja função básica é manter a homeostase do organismo diante de todos os estímulos do mundo exterior e interior. O equilíbrio é conseguido através da livre circulação de energia no organismo, assim como através das trocas contínuas entre o corpo e o meio ambiente. Esse fluxo contínuo de energia nos mantém vivos. Quando a circulação de energia não ocorre de uma maneira adequada surgem as doenças. Nosso corpo vai sinalizando, com muita antecedência, o desequilíbrio através de pequenas alterações funcionais sem substrato físico; isto é, não há nada a nível orgânico que justifique aqueles sinais ou sintomas. Com a não valorização desses sinais e a manutenção do mesmo padrão de vida, as alterações físico-químicas vão-se cronificando, se solidificando até atingirem o seguimento físico; a doença passa a se expressar em algum tecido, órgão ou víscera, acompanhada de padrões mentais e emocionais bem determinados. Saúde e doença são aspectos de um mesmo movimento. Através do desequilíbrio atingimos novo equilíbrio, uma nova freqüência, um novo patamar energético. No período de transição para esse novo padrão, vivencia-se a doença. Ela não é considerada como algo estranho, mas sim, a conseqüência de um conjunto de fatores que culminam em desarmonia e desequilíbrio. É através da doença que alcançamos saúde. Verifica-se, com uma certa freqüência, em pacientes com doenças graves ou terminais, relatos acerca de estarem vivendo melhor ou mais saudavelmente, a partir do momento em que se conscientizaram de sua doença. Para vivermos em harmonia, precisamos ter flexibilidade e disposição para um grande número de opções de interação com o meio ambiente. Sem flexibilidade não há equilíbrio. Períodos de saúde precária são estágios naturais na interação contínua entre o indivíduo e o meio onde ele está inserido. Estar em desequilíbrio significa passar por fases temporárias de doença, nas quais se pode aprender a crescer. A doença é uma oportunidade para a introspecção, de modo que o problema original e as razoes para a escolha de uma certa via de fuga possam ser levadas a um nível consciente onde o problema possa ser resolvido. A função básica do terapeuta está em espelhar a verdade para o paciente, ajudá-lo a desenvolver uma consciência do processo de vida e dos mecanismos (obstáculos e ilusões) que se criam para gerar a doença e, também, poder ajudá-lo a entrar em sintonia com seus próprios recursos de cura, possibilitando o resgate da auto estima, da aceitação e do perdão. Como diz a música de Milton Nascimento e Fernando Brandt, “O que importa é ouvir a voz que vem do coração”, curar-se é abrir o canal da comunicação, é fazer-se entrar em contato com a própria essência, é despertar a capacidade de ser, estar, criar e descriar, sonhar e realizar. Essa autodescoberta é o caminho da auto-cura, que nada mais é do que resgatar o amor próprio. O organismo doente está envolvido no aparecimento, no desenvolvimento e na cura de sua doença. O ser humano pode se instalar na doença, pode obter com ela benefícios, mas pode principalmente pela doença, exprimir tendências profundas. O corpo relata, fala, descarrega e protesta através do seu próprio adoecimento. É sempre, uma forma de o organismo expressar conflitos profundos. Como os distúrbios digestivos, por exemplo, que são muitas vezes, expressão de conflitos entre o reter e o expelir, entre o desejo e a necessidade. A doença, portanto, não é algo que vem de fora ou já está lá antecipada, é, sim, um modo peculiar de a pessoa se comunicar em circunstâncias adversas. É, pois, em suas várias formas, um modo de ser no mundo, um modo de se relacionar com as pessoas em volta. Isso nos leva a ter que encarar o limite do conhecimento técnico na compreensão dos mecanismos de formação das doenças; e, em função desses princípios colocarmo-nos a refletir sobre a importância de se mudar o foco da ação terapêutica, em vez de nos centrar na doença deslocarmos o foco para a interação com alguém que está doente, de quem, na verdade, podem advir os recursos realmente curadores de uma doença. Cada região do corpo além de prestar-se a uma determinada função do organismo pode sinalizar uma zona específica de conflito entre a mente e o corpo. Esses conflitos que geraram emoções estão relacionados a acontecimentos da nossa vida no passado, que não foram bem trabalhados e em razão disso, permanecem mal resolvidos e criando obstáculos para a vida atual. Quando refletimos sobre os conflitos e qual a nossa responsabilidade neles, pode ocorrer a liberação e distribuição de energia que facilita nossa consciência, expressão emocional e a organização de um novo modo de nos colocarmos diante da vida. Poderíamos, entre outras coisas, dizer que a doença é passagem, é comunicação, é transformação e, acima de tudo, poderíamos dizer que ela tem um sentido muito pessoal para cada um, a cada momento de indagação. A doença seria, então, uma entrada em outra realidade. Como um sonho, ela pode ter inúmeras leituras para cada pessoa. A meditação e a oração são práticas que podem nos ajudar nesse processo. Como também podem ser úteis os trabalhos energéticos, as visualizações, os relaxamentos, e, em certos casos, as massagens. Tais práticas e técnicas abrem o caminho para uma outra relação com a doença. Uma relação em que não nos apegamos a ela e nem a rejeitamos. Apenas permitimos a sua presença e ouvimos o que ela tem a dizer, já que pode nos ensinar a ter uma nova relação com tudo o que nos cerca e com a vida. Acima de tudo é possível compreender que nem sempre conseguiremos explicar o que nos acontece. Há muitas coisas misteriosas na vida e o decifrar delas permanecerá além do nosso alcance a despeito de qualquer esforço de nossa parte, entretanto, se formos humildes e confiantes, a nossa essência sempre nos mostrará o que é possível, e com referência ao que permanecer, além disso, nos guiará e ajudará a acolher e reverenciar o desígnio divino: Ser Feliz, a sublime missão! CAUSAS EMOCIONAIS DAS DOENÇAS A nossa saúde é um reflexo das nossas crenças e pensamentos. Quando descobrimos o padrão mental que está por detrás de cada doença, temos a oportunidade de modificá-lo e de nos curar. Nosso corpo está sempre falando conosco. Ele é o nosso professor, que nos avisa quando insistimos num comportamento que nos faz mal. Veja na tabela seguir, os problemas de saúde mais comuns e suas prováveis causas emocionais: PROBLEMA CAUSA EMOCIONAL Acidentes Crença na violência ou na necessidade de receber castigo; deixar que as outras pessoas nos atinjam (acidentes de carro) Anorexia/ Bulimia Raiva de si mesmo; negação da vida; “não ser bom o suficiente” Alergias Agressividade reprimida Amigdalite Criatividade reprimida, incapacidade de expressar a raiva Ansiedade Medo da vida, do futuro Apendicite Medo da vida; de enfrentar os problemas de frente Arteriosclerose Resistência. Recusa em ver a realidade Artrite Criticismo; perfeccionismo; inflexibilidade Asma Incapacidade de se doar; desejo de manipular Câncer Ressentimento; desilusão Coceira Ânsia por alguma coisa, irritação; desejo de sair da própria pele Cólica menstrual Rejeição da condição de mulher; medo; culpa Coluna (problemas na) Incapacidade de se apoiar; falta de confiança na vida Conjuntivite Raiva do que se vê Coração(problema no) Incapacidade de demonstrar amor; falta de alegria Dentes (problemas nos) Indecisão; incapacidade de demonstrar agressividade Depressão Raiva da vida Diabete Amargura Diarréia Medo; fuga Dores agudas Desejo de se castigar Enxaqueca Desejo de controlar; incapacidade de expressar a raiva; repressão sexual Frieiras Medo de não ser aceito; resistência ao progresso Furúnculo Raiva Gastrite Dificuldade para lidar com aborrecimentos Gengivite Insatisfação com relação às próprias decisões Gripe Absorção de negatividade; conflito Joelho (problemas no) Orgulho Labirintite Medo de não estar no controle; sensação de desorientação na vida Mononucleose Hábito de depreciar a vida e os outros Obesidade Necessidade de se proteger ou de se tornar maior para conseguir enfrentar um grande desafio Prisão de ventre Recusa a abandonar velhas idéias; repressão da energia sexual Reumatismo Vitima; amargura Sinusite Irritação Varizes Permanecer num lugar ou situação que se odeia Verruga Expressão de ódio acumulado Vícios Fuga Texto inspirado no livro A Doença como Caminho, Editora Cultrix. E Reiki Essencial, Editora Pensamento. Todo problema de frustração que for enfrentado com realismo e tratado de um modo organizado aumenta a força da personalidade. Todo fracasso com o qual se aprendeu uma lição, proporciona tanto uma experiência como um recurso que ampliam nossa capacidade de enfrentar novos problemas. Dr. John Donnelly.
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