Nascido na Risada


O Zen é a floração suprema da consciência. Ele começa com Gautama Buda entregando uma flor de lótus a Mahakashyapa.



Certa vez, um homem pegou uma flor e, sem uma palavra, segurou-a diante dos homens sentados em círculo ao redor dele. Cada homem por sua vez olhou para a flor e então explicou seu significado, sua importância, tudo o que ela simbolizava. O último homem, entretanto, vendo a flor, não disse nada, somente sorriu. O homem no centro então sorriu também e, sem uma palavra, entregou-lhe a flor. Essa é a origem do Zen.



Certa vez, Buda estava para fazer uma preleção e milhares de discípulos vieram de um raio de muitos quilômetros. Quando Buda apareceu, ele vinha segurando uma flor. O tempo passou, mas Buda não dizia nada, ele apenas olhava para a flor. A multidão ficou impaciente, mas Mahakashyapa, que não conseguiu se segurar por mais tempo, deu uma risada. Buda acenou-lhe para que se aproximasse, entregou-lhe a flor e disse à multidão: "Tudo o que podia ser dado a vocês com palavras eu já lhes dei; mas com esta flor dou a Mahakashyapa a chave de todos os ensinamentos".



A chave de todos os ensinamentos, não apenas para um Buda mas para todos os mestres - Jesus, Mahavira, Lao Tzu -, não pode ser dada por meio da comunicação verbal. A chave não pode ser entregue por intermédio da mente; nada pode ser dito sobre ela. Quanto mais você falar mais difícil fica a entrega, porque você e um buda vivem em dimensões tão diferentes - não só diferentes mas diametralmente opostas - que, seja lá o que for que um buda diga, ele será mal interpretado.



Ouvi dizer que uma noite três mulheres meio surdas se encontraram na rua. Ventava muito naquele dia, assim uma mulher disse: "Tarde ventosa". A outra disse: "Uma cama gostosa? Não, prefiro dormir na rede".



E a outra disse: "Sede? Eu também estou, vamos então ao restaurante tomar uma xícara de chá".



Isso é o que acontece quando um buda diz alguma coisa a você. Ele diz: "Tarde ventosa?" e você diz: "Uma cama gostosa? Não, prefiro dormir na rede".



O ouvido físico está bom, está faltando o ouvido espiritual. Um buda só consegue falar com outro buda, esse é o problema - e com outro buda não há necessidade de falar. Um buda precisa falar com aqueles que não são iluminados. Com eles existe a necessidade de falar e se comunicar, mas a comunicação então é impossível.



Duas pessoas ignorantes podem conversar. Elas falam muito; não fazem outra coisa além de conversar. Duas pessoas iluminadas não podem conversar - seria absurdo. A conversa entre duas pessoas ignorantes não tem nenhum significado porque não há nada para ser transmitido. Elas não sabem nada que possa ser dito, que deveria ser dito, mas elas continuam falando. Estão tagarelando. Não podem evitar isso; é apenas uma catarse maluca, uma liberação.



Duas pessoas iluminadas não podem conversar porque elas sabem a mesma coisa. Nada precisa ser dito. Somente uma pessoa iluminada e uma pessoa não iluminada podem ter uma comunicação significativa, porque um sabe e o outro ainda está na ignorância. Uma comunicação significativa, eu digo. Não digo que a verdade possa ser transmitida. Mas algumas sugestões, algumas indicações, alguns sinais podem ser comunicados, de tal forma que o outro fique pronto para dar o salto. A verdade não pode ser transmitida, mas a sede por ela pode ser dada. Nenhum ensinamento valioso pode entregar a chave por meio de palavras.



O Buda falava - é difícil encontrar uma outra pessoa que falasse tanto. Estudiosos têm examinado todos os escritos que estão em nome de Buda, e parece um feito impossível, porque depois de sua iluminação ele viveu apenas quarenta anos, andando de aldeia em aldeia.



Ele andou por toda a província de Bihar na índia, que recebeu esse nome porque Buda passou por lá. Bihar significa os caminhos por onde andou Buda. A província inteira é chamada de Bihar porque esse é o limite por onde Buda andou - seu bihar, suas andanças.



Ele andava continuamente; somente na estação das chuvas ele descansava. Muito tempo era gasto andando, além disso, ele também precisava dormir. Então os estudiosos que estiveram calculando dizem; "Isso parece impossível. Dormindo, andando, cumprindo todas as outras rotinas diárias - há tantos escritos, como ele pode ter falado tanto? Se ele tivesse falado continuamente durante quarenta anos, sem um único intervalo, só dessa maneira tudo isso poderia ter sido dito". Ele deve ter falado tanto - quase continuamente - e ainda assim ele disse que a chave não pode ser transmitida por palavras.



A história a seguir, é uma das histórias mais significativas, porque dela nasceu a tradição do Zen. Buda foi a fonte e Mahakashyapa foi o primeiro, o mestre original do Zen. Buda foi a fonte, Mahakashyapa foi o primeiro mestre, e esta história é a fonte de onde toda a tradição - uma das mais belas e vividas que existem no mundo, a tradição do Zen – começou.



Tente compreender esta história. Certa manhã Buda chegou, e como sempre uma multidão tinha se reunido, muitas pessoas esperavam para ouvi-lo. Mas uma coisa era fora do comum - ele estava levando uma flor na mão. Nunca antes ele carregara nada nas mãos. As pessoas pensaram que alguém a tinha dado de presente a ele. Buda chegou, sentou-se embaixo de uma árvore. A multidão esperou e esperou e ele não falou. Ele nem mesmo olhava para as pessoas, ele somente continuava a olhar para a flor. Os minutos se passaram, então as horas, e elas ficaram muito inquietas.



Conta-se que Mahakashyapa não pôde se conter. Ele riu alto. Buda chamou-o, deu-lhe a flor e disse para a multidão reunida: "Tudo o que podia ser dito por palavras eu já disse a vocês, e o que não pode ser dito por palavras eu dei a Mahakashyapa. A chave não pode ser comunicada verbalmente. Eu passei a chave para Mahakashyapa".



Isso é o que os mestres do Zen chamam de "transmissão da chave sem escritura" - além da escritura, além das palavras, além da mente. Ele deu a flor a Mahakashyapa e ninguém conseguiu entender o que tinha acontecido. Nem Mahakashyapa nem Buda jamais comentaram sobre isso novamente. O capítulo inteiro estava encerrado. Desde então, na China, no Tibete, na Tailândia, em Burma, no Japão, no Ceilão - em todos os lugares - os budistas têm perguntado durante esses vinte e cinco séculos: "O que foi dado a Mahakashyapa? Qual era a chave?"



A história toda parece ser muito esotérica. Buda não era reservado; esse foi o único incidente... Buda era um ser muito racional. Ele falava racionalmente, ele não era um louco arrebatado, ele argumentava racionalmente e sua lógica era perfeita - não se consegue descobrir uma falha nela. Esse foi o único incidente em que ele se comportou ilogicamente, em que ele fez algo misterioso. Ele não era nem um pouco misterioso. Ninguém consegue encontrar outro mestre que tenha sido menos misterioso.



Jesus era muito misterioso. Lao Tzu era absolutamente misterioso. Buda era simples, transparente; nenhum mistério o cerca, nenhuma fumaça é permitida. Sua chama arde clara e brilhante, absolutamente transparente, sem fumaça. Essa era a única coisa que parecia misteriosa. Ele não era nem um pouco misterioso; por isso muitos escritos budistas nunca relataram essa história, eles simplesmente a suprimiram. Parecia que alguém a tinha inventado. Não fazia nenhum sentido com a vida e os ensinamentos de Buda.



Mas para o Zen, essa é a origem. Mahakashyapa tornou-se o primeiro portador da chave. Então seis portadores da chave viveram sucessivamente na Índia, até Bodhidharma, que foi o sexto portador da chave.



Para mim, se todos os escritos de Buda desaparecerem não se perderá nada. Somente essa história não deveria desaparecer. Essa é a mais preciosa, embora os estudiosos a tenham suprimido da biografia de Buda. Eles dizem: "Isso é irrelevante; não combina com Buda". Mas eu digo a vocês, a maior parte do que Buda fez era apenas normal, qualquer um poderia fazê-lo, mas isso é extraordinário, isso é excepcional. Somente um buda pode fazer isso.



O que aconteceu naquela manhã? Vamos analisá-la. Buda chegou, sentou-se e começou a olhar para a flor. O que ele estava fazendo? Quando Buda olha para qualquer coisa, a qualidade de sua consciência é transmitida. E uma flor é uma das coisas mais receptivas do mundo. Por isso, hindus e budistas levam flores para pôr aos pés do mestre ou no templo, porque a flor pode carregar alguma coisa de sua mente.



A flor é uma coisa muito receptiva e, se tiver conhecimento de uma pesquisa recente no Ocidente, você entenderá isso. Atualmente, dizem que as plantas são mais sensíveis do que os seres humanos. A flor é o coração da planta, todo o ser vai dentro dela. Muitas pesquisas estão sendo feitas na Rússia, nos Estados Unidos, na Inglaterra, sobre a sensibilidade das plantas, e algumas coisas maravilhosas têm sido descobertas.



Um homem, um cientista, estava estudando as plantas - como elas sentem, se elas sentem alguma coisa ou não, se elas têm emoções ou não. Ele estava observando uma planta com eletrodos fixados nela para detectar qualquer movimento em seu interior, qualquer sensação, quaisquer emoções. Ele pensou: "Se eu cortar esta planta, se eu arrancar um galho ou arrancá-la da terra, o que acontecerá?" De repente, a agulha que traçava o gráfico pulou. Ele não tinha feito nada, apenas tinha tido um pensamento: "Se eu arrancasse esta planta..." A planta ficara com medo da morte e a agulha saltara, registrando que a planta estava tremendo. Até o cientista ficou assustado porque ele não tinha feito nada - apenas um pensamento e a planta o tinha captado. As plantas são telepáticas.



Não apenas isso, mas, se você pensa em cortar uma planta, todas as outras plantas ao redor dessa área ficam emocionalmente perturbadas. Também, se alguém tiver cortado uma planta e entrar nesse jardim, todas as plantas ficarão perturbadas porque esse homem não é bom e elas carregam essa lembrança. Todas as vezes em que esse homem entra no jardim, o jardim inteiro sente que uma pessoa perigosa está entrando. Agora, alguns cientistas acham que as plantas podem ser usadas para comunicação telepática, porque elas são mais sensíveis que a mente humana.



No Oriente, sempre se soube que a flor é a coisa mais receptiva que existe. Quando Buda olhou para a flor e continuou a olhar para a flor, alguma coisa dele se transferiu para essa flor. Buda entrou na flor. A qualidade do seu ser - a prontidão, a percepção, a paz, o êxtase, a dança interior - tocaram a flor. Com o Buda olhando para a flor - tão calmo, à vontade, sem nenhum desejo -, a flor deve ter dançado em seu ser interior. Buda olhou, a fim de transferir alguma coisa para a flor. Somente a flor e ele existiam - por um longo período, o resto do mundo desapareceu. Somente Buda e a flor estavam lá. A flor entrou no ser do Buda, e Buda entrou no ser da flor.



Então a flor foi dada a Mahakashyapa. Agora já não era apenas uma flor. Ela carregava a condição de Buda, ela carregava a qualidade interior do ser de Buda. E por que para Mahakashyapa? Havia outros grandes seguidores. A História registra dez grandes discípulos; Mahakashyapa era apenas um, e ele foi incluído entre os dez somente por causa dessa história; caso contrário, ele jamais teria sido incluído.



Não se sabe muito sobre Mahakashyapa. Lá havia grandes seguidores, como Sariputta - você não conseguiria encontrar um intelecto mais afiado. Moggalayan também estava lá, um grande estudioso; ele guardava na memória todos os Vedas, e nada do que já tivesse sido escrito era desconhecido para ele. Ele mesmo um grande lógico, Moggalayan tinha milhares de discípulos. E havia outros. Ananda estava lá, primo-irmão de Buda, que durante quarenta anos acompanhou-o continuamente. Mas não, alguém que era desconhecido anteriormente - Mahakashyapa - de repente se tornou muito importante. Toda a gestalt se modificou. Todas as vezes em que Buda estava falando, Sariputta era o homem importante porque ele conseguia entender melhor as palavras do que qualquer outra pessoa, e quando Buda estava argumentando, Moggalayan era o homem importante. Ninguém notava muito Mahakashyapa. Ele permanecia na multidão, ele fazia parte da multidão.



Mas, quando Buda ficou calado, toda a gestalt se modificou. Agora Moggalayan e Sariputta não tinham importância; eles simplesmente deixaram de existir como se não estivessem lá. Eles passaram a fazer parte da multidão. Um novo homem, Mahakashyapa, tornou-se o mais importante. Uma nova dimensão se abriu. Todos estavam inquietos, pensando: "Por que Buda não está falando? Por que ele está guardando silêncio? O que vai acontecer? Quando irá acabar?" Eles estavam pouco à vontade, inquietos.



Mas Mahakashyapa não estava se sentindo pouco à vontade ou inquieto. Ao contrário, pela primeira vez ele estava à vontade com Buda; pela primeira vez ele se sentia em casa com Buda. Quando Buda falava, ele podia se sentir inquieto. Ele podia ter pensado: "Por que essa tolice? Por que continuar falando? Nada está sendo transmitido, nada está sendo compreendido; por que continuar batendo com a cabeça na parede? As pessoas são surdas. Elas não conseguem entender..." Ele devia ficar inquieto quando Buda falava, e agora, pela primeira vez, ele estava à vontade. Ele conseguia entender o que era o silêncio.



Havia milhares de pessoas lá e todas estavam inquietas. Ele não pôde se conter, percebendo a insensatez da multidão. Elas ficavam calmas quando Buda estava falando; e agora elas ficavam inquietas quando ele estava em silêncio. Quando alguma coisa poderia ser transmitida, elas não estavam abertas para isso; quando nada poderia ser transmitido, elas ficavam esperando. Por meio do silêncio, Buda podia dar alguma coisa que é imortal, mas elas não conseguiam entender. Assim ele não conseguiu se conter e riu alto - riu de toda a situação, do absurdo.



Mahakashyapa riu da insensatez das pessoas. Elas estavam inquietas e pensando: "Quando Buda irá se levantar e deixar de lado todo este silêncio de forma que possamos ir para casa?" Ele riu. A risada começou com Mahakashyapa e prosseguiu mais e mais na tradição do Zen. Não há nenhuma tradição que consiga rir. A risada parece tão irreligiosa, profana, que você não consegue imaginar Jesus rindo, você não consegue imaginar Moisés rindo. É até mesmo difícil imaginar Moisés dando uma gargalhada ou Jesus rindo ruidosamente. Não, a risada era negada. A tristeza, de algum modo, tornou-se religiosa.



Um dos mais famosos pensadores alemães, Count Keyserling, escreveu que a saúde é irreligiosa. A doença tem uma religiosidade em torno dela porque uma pessoa doente é triste, sem desejos - não porque ela tenha ficado apática, mas porque está fraca. Uma pessoa saudável vai rir, quer se divertir, será feliz - ela não consegue ser triste. Assim, as pessoas religiosas têm tentado de muitas formas fazer você se sentir doente: incentivam o jejum, oprimem seu corpo, torturam você. Você vai ficar triste, com tendências suicidas, crucificado em seu próprio ser. Como você pode rir? A risada vem da saúde. É um transbordamento de energia. É por isso que as crianças conseguem rir e sua risada é por inteiro. Todo o corpo delas ri - quando elas riem você pode ver seus dedos do pé rindo. Seu corpo inteiro - cada célula, cada fibra do corpo - está rindo e vibrando. Elas são tão cheias de energia, tão vitais; tudo está fluindo.



Uma criança triste é uma criança doente, e um velho sorridente ainda é jovem. Nem a morte pode fazer dele um velho; nada pode envelhecê-lo. Sua energia ainda está fluindo e transbordando, ele está sempre preenchido. A risada é uma torrente de energia.



Nos mosteiros zen, eles dão risadas e mais risadas. A risada tornou-se uma prece apenas no Zen, porque Mahakashyapa começou isso. Vinte e cinco séculos atrás, em uma manhã como esta, Mahakashyapa começou uma nova tendência, absolutamente nova, antes desconhecida para a mentalidade religiosa - ele riu. Ele riu da tolice, da estupidez. E Buda não o condenou; ao contrário, ele o chamou para perto de si, deu-lhe a flor e falou para a multidão.



E quando a multidão ouviu a risada deve ter pensado: "Este homem está ficando louco. Este homem está desrespeitando Buda, porque como pode alguém rir diante de um buda? Quando um buda está sentado silenciosamente, como pode alguém rir? Este homem não está respeitando".



A mente dirá que isso é um desrespeito. A mente tem suas regras, mas o coração não as conhece; o coração tem suas próprias regras, mas a mente nunca ouviu falar delas. O coração pode rir e ser respeitoso. A mente não pode rir, só pode ser triste e então respeitosa. Mas que espécie de respeito é esse, que não permite rir? Uma nova tendência começou com a risada de Mahakashyapa, e pelos séculos a risada continuou.



Somente os mestres do Zen, os discípulos do Zen, riem. Por todo o mundo, as religiões ficaram doentes porque a tristeza se tornou proeminente. Os templos e as igrejas parecem cemitérios; não têm aparência festiva, não dão uma idéia de celebração. Se você entra numa igreja, o que vê lá dentro? Não a vida, mas a morte - lá, Jesus pregado na cruz completa a tristeza. Você consegue rir numa igreja, dançar numa igreja, cantar numa igreja? Sim, há cânticos, mas são tristes, e as pessoas permanecem com os rostos entristecidos. Não é de admirar que ninguém queira ir à igreja - é apenas um dever social a ser cumprido. Não é de admirar que ninguém seja atraído pela igreja - é uma formalidade. A religião tornou-se um programa de domingo. Durante uma hora você consegue agüentar ficar triste.



Mahakashyapa riu diante de Buda, e desde então os monges e mestres do Zen têm feito coisas que as pretensas mentes religiosas não podem nem mesmo conceber. Se você já viu qualquer livro zen, deve ter visto mestres do Zen retratados ou pintados. Nenhuma pintura é realista. Se você olhar a figura de Bodhidharma ou a de Mahakashyapa, não há verdade em suas faces, mas basta olhar para eles que você sentirá vontade de rir. Eles são hilários, são ridículos.



Observe as imagens de Bodhidharma. Ele deve ter sido um dos homens mais bonitos que já existiram; é impossível que ele não fosse assim, porque sempre que um homem fica iluminado uma beleza desce sobre ele, uma beleza que vem do além. Uma bênção envolve todo o seu ser. Mas olhe a imagem de Bodhidharma. Ele parece feroz e perigoso. Ele parece tão perigoso que você vai ficar com medo se ele aparecer para visitá-lo durante a noite - nunca mais você vai conseguir dormir! Ele parece tão perigoso, como se fosse matar alguém. Tratava-se apenas de discípulos rindo de seu mestre, criando um retrato ridículo que parece uma caricatura.



Todos os mestres do Zen são retratados de modo ridículo. Os discípulos gostam disso. Mas essas imagens carregam a mensagem de que Bodhidharma é perigoso, que, se você for até ele, ele vai matá-lo, que você não consegue fugir dele, que ele vai persegui-lo e caçá-lo. Para qualquer lugar para onde você vá, ele vai estar lá; a menos que consiga matá-lo, ele não vai deixar você em paz. Isso é que é retratado em todos os mestres do Zen, mesmo Buda.



Se você olhar para as figuras de Buda japonesas e chinesas, elas não parecem com o Buda indiano. Foram totalmente mudadas. Se você observar as imagens do Buda indiano, seu corpo é proporcional, como deveria ser. Ele era um príncipe, e então um buda - um homem bonito, perfeito, bem proporcionado. Um Buda barrigudo? Ele nunca teve uma barriga grande. Mas no Japão, em suas imagens e em seus escritos, ele é retratado com uma barriga grande, porque um homem que ri tem de ter uma barriga grande. Um homem que dá gargalhadas - como se pode representá-lo com uma barriga pequena? Não dá. Eles estão fazendo uma brincadeira com Buda e disseram cada coisa sobre Buda! Somente um amor muito profundo pode fazer isso, do contrário vai parecer um insulto.



O mestre zen Bankei sempre insistia em ter um quadro de Buda pendurado atrás dele e, falando com seus discípulos, dizia: "Olhem para este sujeito. Quando encontrarem com ele, matem-no imediatamente; não lhe dêem nenhuma chance. Enquanto estiverem meditando, ele aparecerá para perturbar vocês. Quando enxergarem seu rosto na meditação, matem-no nesse exato momento; caso contrário, ele irá persegui-los". E ele costumava dizer: "Olhem para este sujeito! Se vocês repetirem o nome dele" - porque os budistas seguem repetindo, Namo Budaya, namo Budaya -, "se vocês repetirem o nome dele, então lavem a boca". Essa declaração parece um insulto. É o nome de Buda e esse homem diz: "Se vocês o repetirem, a primeira coisa a fazer é lavar a boca. A boca de vocês ficou suja".



Mas ele está certo - porque palavras são palavras; seja ou não o nome de Buda não faz a menor diferença. Quando uma palavra passa por sua mente, ela se torna suja. Lave até mesmo o nome de Buda.



E esse homem, mantendo sempre atrás dele o retrato de Buda, curvava-se diante dele todas as manhãs. Então os discípulos perguntaram: "O que está fazendo? Você nos diz para matar este homem, não permitir que ele permaneça no caminho. Você diz: 'Não usem o seu nome, não o repitam; se isso acontecer com vocês, lavem a boca'. E agora nós o vemos curvando-se diante dele!"



Bankei disse: "Tudo isso me foi ensinado por este sujeito, assim eu tenho de prestar-lhe meus respeitos".



Mahakashyapa riu - e sua risada carregava muitas dimensões dentro dela. Uma dimensão era rir da tolice de toda aquela situação, do silêncio do Buda e ninguém o compreendendo, todos esperando que ele falasse. Sua vida inteira Buda passou dizendo que a verdade não pode ser dita, e ainda assim as pessoas esperavam que ele falasse. A segunda dimensão - ele riu de Buda também, de toda a situação dramática que ele havia criado, sentado ali com uma flor na mão, olhando para a flor, criando tanto desconforto e inquietação em todos. E ele riu muito desse gesto teatral de Buda.



A terceira dimensão foi rir de si mesmo. Por que ele não tinha conseguido compreender até aquele momento? A coisa toda era fácil e simples. E no dia em que você compreender, você vai rir também, porque não há nada para ser compreendido. Não há nenhuma dificuldade a ser resolvida. Tudo foi sempre simples e claro. Como você não viu isso antes?



Com Buda sentado em silêncio, os pássaros cantando nas árvores, a brisa soprando e todo mundo inquieto, Mahakashyapa compreendeu.



O que foi que ele compreendeu? Ele compreendeu que não há nada para ser compreendido, não há nada para ser dito, não há nada para ser explicado. Toda a situação é simples e transparente.



Não há nada escondido nela. Não há necessidade de procurar, porque tudo o que existe está aqui e agora, dentro de você. Ele riu dele mesmo também, de todo o absurdo esforço de muitas vidas apenas para compreender o silêncio - ele riu de tanta reflexão.



Buda o chamou, deu-lhe a flor e disse: "Por meio desta, eu lhe dou a chave". O que é a chave? O silêncio e a risada são a chave - silêncio dentro, risada fora. E quando a risada surge do silêncio, ela não é deste mundo; é divina.



Quando a risada surge da reflexão, ela é feia; ela pertence a este mundo comum, mundano; não é cósmica. Então você está rindo de alguma outra pessoa, à custa de outra pessoa, e a risada é feia e violenta.



Quando a risada surge do silêncio, você não está rindo à custa de ninguém, está rindo simplesmente de toda a piada cósmica. E ela é realmente uma piada! E é por isso que eu continuo contando piadas... porque as piadas transmitem mais do que qualquer escritura. É uma piada porque, dentro de você, você tem tudo - mas está procurando por toda parte!



O que mais poderia ser uma piada? Você é um rei e age como um mendigo nas ruas - não apenas agindo, não apenas enganando os outros, mas também enganando a si mesmo, pretendendo ser um mendigo. Você tem a fonte de todo o conhecimento e está fazendo perguntas; você tem o eu que sabe e pensa que é ignorante; você tem a imortalidade dentro de você e fica com medo da morte e da doença. Isso realmente é uma piada, e se Mahakashyapa riu, ele fez muito bem.



Mas, com exceção de Buda, ninguém entendeu. Buda aceitou a risada e imediatamente percebeu que Mahakashyapa tinha captado. A qualidade dessa risada era cósmica; ele compreendeu toda a graça da situação. Não havia nada mais indicado para ela. A coisa toda é como se o divino estivesse brincando de esconde-esconde com você. As outras pessoas pensaram que Mahakashyapa fosse um bobo, rindo diante de Buda. Mas Buda achou que esse homem tinha se tornado sábio. Os bobos têm sempre uma sabedoria sutil, e os sábios sempre agem como bobos.



Antigamente, todos os grandes imperadores tinham sempre um bobo na corte. Tinham muitos homens sábios, conselheiros, ministros e primeiros-ministros, mas sempre um bobo. Mesmo que muitos deles fossem inteligentes e sábios, os imperadores de todo o mundo no Ocidente e no Oriente tinham um piadista na corte, um bobo. Por quê? Porque há coisas que os chamados homens sábios não são capazes de entender, que apenas um homem tolo pode entender, porque os sábios podem ser tão tolos que sua esperteza e sua inteligência fecham a mente deles.



O bobo é simples, e necessário porque muitas vezes os chamados sábios não diziam alguma coisa porque tinham medo do imperador. O bobo não tem medo de ninguém. Ele vai falar qualquer coisa sem temer as conseqüências. O bobo é um homem que não vai pensar nas conseqüências. O homem inteligente sempre pensa primeiro no resultado e, então, age. O pensamento vem antes, depois a ação. O homem tolo age; o pensamento nunca vem em primeiro lugar. Quando alguém compreende o fundamental, ele não é como o homem sábio. Ele não pode ser. Ele pode ser como o bobo mas não pode ser como o homem sábio. Quando Mahakashyapa riu, ele era um tolo; mas Buda o entendeu. Mais tarde, os sacerdotes budistas não o compreenderam, por isso omitiram a história inteira.



Essa história foi suprimida de toda a escritura budista porque é sacrilégio rir diante do Buda. Não é bom fazer disso a fonte original de uma grande tradição como o Zen. Já não é um bom precedente que um homem tenha dado risada diante do Buda e também não é uma boa coisa que Buda tenha dado a chave a esse homem e não a Sariputta, Ananda, Moggalayan e outros que eram importantes, significativos. E afinal foram eles, Sariputta, Ananda e Moggalayan, que registraram as escrituras.



Mahakashyapa nunca foi questionado. E mesmo se eles tivessem lhe perguntado, ele não teria respondido. Mahakashyapa nunca foi consultado para verificarem se ele tinha alguma coisa a dizer para ser registrada.



Quando Buda morreu, todos os monges reuniram-se e começaram a anotar o que tinha ou não acontecido. Ninguém perguntou nada a Mahakashyapa. Esse homem deve ter sido descartado pela comunidade. A comunidade inteira deve ter ficado com ciúme. A chave tinha sido dada para esse homem que era um completo desconhecido, que não era um grande discípulo ou autoridade. Ninguém o conhecia antes e, de repente, naquela manhã ele se tornou o homem mais importante por causa de sua risada, por causa do silêncio.



E de uma certa forma eles estavam certos, porque como você vai registrar o silêncio? Você pode registrar palavras, pode registrar o que aconteceu no visível; como você pode registrar o que não aconteceu no visível? Eles sabiam que a flor tinha sido dada a Mahakashyapa, nada mais.



Mas a flor era apenas um recipiente. Havia alguma coisa nela - a condição de buda, o toque do ser interior do buda, a fragrância que não pode ser vista, que não pode ser registrada. A coisa toda dá a impressão de não ter acontecido, ou que tivesse acontecido num sonho.



Aqueles que estavam registrando eram homens ligados à palavra, peritos na comunicação verbal, em conversar, discutir, argumentar. Mas Mahakashyapa nunca foi ouvido novamente. Esta é a única coisa que se sabe a respeito dele, uma coisa tão pequena que as escrituras devem tê-la deixado passar. Mahakashyapa permaneceu em silêncio, e silenciosamente o rio interior tem fluido. A chave tem sido entregue a outros, e a chave ainda está viva, ela ainda abre a porta.



Estes dois são as partes. O silêncio interior - o silêncio tão profundo que não existe vibração em seu ser; você é, mas não há ondas; você é apenas um poço sem ondas, nem ao menos uma onda se levanta; todo o ser silente, imóvel; dentro, no centro, o silêncio - e, na periferia, celebração e risadas. E somente o silêncio pode rir, porque somente o silêncio consegue entender a piada cósmica.



Dessa forma sua vida se torna uma celebração vital, seus relacionamentos tornam- se uma coisa festiva, não importa o que você faça, todo momento é um festival. Você come, e o comer se torna uma celebração; você toma banho, e o banhar-se se torna uma celebração; você fala, e o falar se torna uma celebração; o relacionamento se torna uma celebração. Sua vida exterior fica festiva, não há tristeza nela. Como pode haver tristeza com o silêncio? Mas normalmente você pensa o inverso: pensa que se for calado ficará triste. Normalmente você acha, como é possível evitar a tristeza se ficar calado? Eu lhe digo que o silêncio que existe com a tristeza não pode ser verdadeiro. Alguma coisa saiu errado. Você perdeu o caminho, está fora dos trilhos. Somente a celebração pode dar provas de que o verdadeiro silêncio aconteceu.



O Buda deve ter entendido Mahakashyapa. Ele deve ter sabido quando estava olhando silenciosamente para a flor e todos estavam inquietos, ele deve ter sabido que um único ser que estava lá, Mahakashyapa, não estava inquieto. Buda deve ter sentido o silêncio vindo de Mahakashyapa, mas não quis chamá-lo. Quando ele riu, então Buda o chamou e lhe deu a flor. Por quê? O silêncio é apenas metade disso. Mahakashyapa poderia ter deixado passar se ele tivesse permanecido inocentemente em silêncio e não tivesse rido. E então a chave não teria sido dada a ele. Ele tinha crescido apenas em parte, não florescendo ele ainda não era uma árvore completamente adulta. A árvore estava lá, mas as flores ainda não tinham surgido. Buda esperou.



Agora, vou lhe dizer por que Buda esperou por tantos minutos, por que durante uma ou duas ou três horas ele esperou. Mahakashyapa estava em silêncio, mas estava tentando segurar a risada, estava tentando controlar o riso. Ele estava tentando não rir porque seria muita grosseria: O que Buda iria pensar? O que os outros iriam pensar? Mas então, conta a história, ele não conseguiu se conter mais. Surgiu como uma risada. O fluxo tornou-se muito intenso, e ele não conseguiu contê-lo mais. Quando o silêncio é demais ele se transforma em riso; ele se torna tão intenso que começa a transbordar em todas as direções. Ele riu. Deve ter sido uma risada louca, e nessa risada não havia Mahakashyapa. O silêncio estava rindo, o silêncio tinha florescido.



Então, imediatamente, Buda chamou Mahakashyapa: "Pegue esta flor - esta é a chave. Dei a todos os outros o que podia ser dado em palavras, mas para você eu dou aquilo que não pode ser dado em palavras. A mensagem além das palavras, o mais essencial, eu lhe dou". Buda esperou por aquelas horas para que o silêncio de Mahakashyapa transbordasse. Ele se transformou em risada.

OSHO


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"Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto."Rubem Alves

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